4.2.11

Anatomia da alma

«Caminhava eu com dois amigos pela estrada, então o sol pôs-se; de repente, o céu tornou-se vermelho como o sangue. Parei, apoiei-me no muro, inexplicavelmente cansado. Línguas de fogo e sangue estendiam-se sobre o fiorde preto-azulado. Os meus amigos continuaram a andar, enquanto eu ficava para trás tremendo de medo e senti o grito enorme, infinito, da natureza.»

Edvard Munch [1863-1944],
descrição do cenário que deu origem ao quadro «O grito» [1883]


Percorri muitos trilhos com amigos. Um dia, dei por mim esgotada. Sentei-me na berma da estrada, olhando o caminho que fizera. Passou muito tempo.

Encontro-me ainda neste sítio. Aqui escolhi parar e enfrentar tudo: vendavais, chuvas torrenciais, terramotos, a guerra. Vi brotar algumas rosas, rosas vermelhas, a quem a manhã deu a cor com a sua morte. Todos os dias vi chegar muitas gentes, muitos mundos, o desconhecido. Também esses partiram e eu fiquei só no céu aberto. Quando chega a noite, todas as noites, abraço-me à escuridão que sei de cor.

Eis-me na berma da estrada, cansada como ela, batida dos passos e dos pneus dos carros que a fustigam. Eis-me aqui, onde enfrentei o bem e o mal e experimentei os seus sabores. Aqui, neste chão de pó que me serve de amparo, escrevi a minha vida.

Os meus amigos, esses, ainda hoje continuam a andar em frente. Correm a esconderem-se na multidão, temendo, sem dúvida, suportarem-se a si próprios.

© [m.m. botelho]

5.11.10

óculos de sol

Olhou para o cigarro que segurava entre os dedos. Puxou uma última fumaça. Depois, atirou a beata para o chão e pisou-a, vezes sem conta, com uma imensa força.
Pôs a mochila às costas, o capacete da mota no ombro, o chapéu na cabeça. Apalpou os bolsos do casaco. Esquecera-se dos óculos de sol. Puxou a pala do chapéu para baixo, voltou o olhar para o chão e começou o caminho. «Quem não tem cão, caça com gato», pensou, enquanto deixava um rasto de poeira a cada passada que dava.

Um pouco mais adiante lembrou-se de que, afinal, os óculos não estavam esquecidos; havia-os pousado no selim enquanto fumava.
Não voltou atrás. E, desde esse dia, não tornou a fumar.

© [m.m. botelho]

15.10.09

Pergunta

E se eu continuar em silêncio
durante outros tantos dias?


© [m.m. botelho]

12.7.09

rua de cedofeita

- Disseram-me que o mundo acaba amanhã.
Olhei para o relógio, para o quadradinho minúsculo que marca o dia
12
e disse
- 13 de Julho? O mundo vai acabar no dia 13 de Julho?
Que raio de dia para o mundo acabar.
- Pelos vistos vai, segundo estava a dizer um velho de barbas cinzentas na Rua de Cedofeita.
Ora porra,
pensei
13 de Julho é uma data perfeitamente banal, não me lembro de nada de importante que tenha acontecido noutros dias 13 de Julho que mereça que o mundo acabe por isso.
- Esse velho, tenho ideia de já o ter visto noutros sítios
lembrei-me e disse
- costuma andar com uma saca de plástico na mão, onde vai metendo porcarias que apanha nos caixotes do lixo. Esse velho não sabe sequer o que apanha e enfia para o saco, como há-de saber o que diz?

- O mundo não pode acabar amanhã porque eu ainda não li nenhum livro do Tolstoi
mas tenho julgo que uns três na estante da sala.
- Que se foda o Tolstoi, para que queres ler os livros dele? Achas que ficas mais culta por isso? A mim o que me preocupa é nunca ter lido o Marquês de Sade, a sua Juliette e tantos outros, livros escritos com sangue e esperma e suor e muita merda à mistura.
O Marquês de Sade era um porco de primeira.
- Não digas asneiras. Detesto quando dizes asneiras. Acho que fazes de propósito porque sabes que eu não gosto de palavrões.
A não ser porra, porque eu digo porra aí um milhão de vezes ao dia, mas porra não é asneira, é uma espécie de interjeição de espanto, de indignação e de desabafo, uma espécie de interjeição 3 em 1, pau para toda a obra.
- Não gostas porquê? Não me digas que o teu querido Tolstoi não escrevia asneiras.
- Sei lá se escrevia ou não, já te disse que nunca li nenhum livro do gajo.
- Qualquer palavra em russo soa a asneira, porra.
Então, se calhar, nem sequer gostas do que ele escreve. Tanta conversa, tanta coisa e nem sequer sabes se gostas.

- O que é que vais fazer amanhã? Já decidiste se sempre vais cortar o cabelo?
Ando há que tempos para cortar este cabelo enorme, mudar de penteado, quem sabe, pintá-lo. Há tantas possibilidades.
Quando se tem o cabelo deste tamanho tudo é possível,
é o que dizem sempre os cabeleireiros.
- Sou capaz de ir cortar o cabelo, amanhã. O mundo acaba a que horas?
- Não sei, o raio do velho não disse a hora, só disse o dia. Mas não fiques triste, pode ser que seja só à tarde e ainda dê para cortares o cabelo.
- Mas amanhã que dia é? Olho outra vez para o relógio e vejo
SUN
- Amanhã é segunda-feira.
- À segunda-feira os cabeleireiros estão fechados,
então não posso cortar o cabelo.
O mundo vai acabar e eu com esta melena de leão das Áfricas, que raio de figurinhas para assistir ao fim do mundo
estou capaz de dizer um palavrão
amanhã é segunda-feira
porra.

© [m.m. botelho]

6.5.09

Negros hábitos I

Negros hábitos II

Negros hábitos III e último

18.4.09

remoinho

Onde vais?, perguntou-lhe, os pés cobertos de areia molhada, os olhos fixos na água que fazia remoinho na cova que escavara com os dedos.
Ainda não sei, não decidi. Mas que diferença faz, se não podes vir comigo?, respondeu, o nariz enfiado no mapa à sombra do chapéu, o suor a escorrer-lhe pela testa.
Sim, tens razão, mas não me lamento. Apesar de não gostar de aqui estar, habituei-me a isto e por aqui ficarei.
Então, fechou o mapa, tirou o chapéu, limpou o suor, olhou para o sol e sacudiu os pés. Depois deu grandes passadas em direcção às dunas e foi desaparecendo, até que o areal engoliu a última réstia da sua imagem.

Mesmo que o desejasse muito, não iria contigo. O meu coração é demasiado fraco para o teu fôlego, para a força das tuas pernas. Eu fico por aqui. Assim, sem adeus nem despedidas, apenas os olhos fixos na água em remoinho dentro de mim.

© [m.m. botelho]

17.2.09

Exame

Há dias em que nos sentimos um belo naco de merda.

São dias em que não sabemos propriamente o que andamos por cá a fazer, em que acusamos todo o tipo de carências e dúvidas e tudo o mais que aumente a miserabilidade da nossa existência. Dizem os entendidos que não passam de fases, pela própria natureza, portanto, passageiras, mas que, como as ondas do mar - analogia preferida dos que sobre isto discorrem - andam num permanente ir e voltar.
Pela minha parte vejo-as como carraças que se nos colam à pele, que nos sugam o sangue - uma boa analogia para a vontade de viver ou, pelo menos, de ser feliz -, que nos fazem sentir mais vulneráveis do que um estudante perante uma folha branca num exame escrito.
A vida, afinal de contas, é um exame escrito permanente, em que o que nos é pedido não passa sempre de um resumo do que outros fizeram, do que outros disseram que deve ser, do que outros destinaram para nós. E perante isto há dias em que eu fico suspensa, a caneta na mão, o ar a encher-me o peito enquanto aguardo que as ideias se dignem salvar-me do abismo para onde me inclino mas as ideias, essas putas que se deitam nas cabeças de tanta a gente, não me tomam a massa cinzenta. E ali fico eu, o peito eventualmente menos inchado a cada expiração, a folha cada vez mais branca, reluzente, ofuscante à minha frente. Ali fico eu, especada, muda, imóvel, frágil.
É nessas alturas que a vida parece um poço sem fim, escuro e húmido, de onde não consigo sair porque as paredes, cobertas de musgo, me fazem escorregar as mãos. O cheiro é pútrido, como o de todos os poços abandonados para onde, ao longo do tempo, os homens foram atirando o seu lixo, tudo o que não queriam, o que lhes sobrava, os estorvos. Há dias em que, mesmo no fundo do poço, nos desviamos, mas há dias em que não conseguimos evitar sermos soterrados pelos escolhos.

É precisamente nesses dias que nos sentimos um belo naco de merda.

Ainda fiquei a olhar durante uns tempos para aquelas letras desenhadas naquela folha branca. Sentia-lhes o cheiro a desespero no desenho uniforme. Dobrei o papel e voltei a metê-lo no envelope, que guardei dentro de uma gaveta do móvel da sala. Olhei pela janela. O vento rugia, as folhas desprendiam-se das árvores para encher os esgotos, o dia estava escuro. «Mau tempo para um funeral», pensei. Depois, enfiei-me dentro da gabardina preta e pus-me a caminho do cemitério. Foi então que a chuva desatou a bater as vidraças com raiva.

© [m.m. botelho]

15.1.09

Tu não existes

Deixa-me pensar que tu não existes. Tudo parece - não sei se chega a ser, mas parece - muito mais fácil quando tu não estás dentro da minha cabeça, debaixo da minha pele, na minha expiração. Deixa-me pensar que tu não existes para mim, ainda que existas para lá de mim. Um pouco como o azul dos céus que não existe quando não o olho, um pouco como o frio que não sinto quando outros braços me abraçam.

Tu não existes, eu não existo e nós nunca fomos se a minha memória te apagar e não mais for possível misturar o meu corpo com o teu, o meu cheiro com o teu, as nossas salivas, as nossas línguas quentes e húmidas. Tu não existes, eu não existo e nós nunca fomos se nós não quisermos.

© [m.m. botelho]

4.1.09

Outra vez Janeiro

Entraste, pé ante pé, na grande sala. Eu dormia no sofá, coberta com uma manta - já não me lembro de que cor. Tinha o rosto meio iluminado pelo colorido intermitente das luzes da árvore de Natal, o braço direito pendente, roçando o tapete, os cabelos sobre a testa e os olhos, despenteados. Eu pressenti a tua entrada, mas deixei-me ficar mergulhada na sensação daquele despertar incompleto. Ouvia os teus passos, o ranger das portadas a abrirem-se, o som cada vez mais nítido do arrulhar dos pombos lá fora.
Abeiraste-te de mim e compuseste a manta, seguraste o meu braço, afastaste os cabelos do meu rosto. Depois disseste, muito baixinho - mal te ouvi - que o Natal já tinha passado, que o ano já tinha acabado, que já era Janeiro. Eu dormira todos aqueles dias seguidos, as horas engatadas umas nas outras como uma corrente que me prendia ao sono.

- Já é Janeiro.

disseste, muito baixinho - mal te ouvi.

Não sei porque continua a tua voz a despertar-me agora que a sala continua grande, mas já sem árvore de Natal, sem luzes coloridas intermitentes, as portadas sempre fechadas, o som do arrulhar dos pombos demasiado distante para que o pressinta. Talvez seja porque é outra vez Janeiro. Talvez seja porque as horas continuam engatadas umas nas outras como uma corrente que me prende a ti.

© [m.m. botelho]

24.11.08

Corrente de ar

Tu não vais a lugar nenhum. Foi assim, com esta frase, que tu tentaste impedir-me de sair. O tom era de sentença de morte, mas nunca vi um juiz bradar decisões em pijama, o cabelo desgrenhado, o jornal diário a escorrer-lhe da mão direita e a chávena de café a fumegar na esquerda. Eu nunca vi, mas de tribunais e juízes e sentenças conheço pouco e a acreditar na lentidão que atribuem aos processos se calhar até há quem durma nos tribunais e não tenha tempo de tomar banho e o pequeno-almoço antes de se pôr a cagar leis.
Eu ainda me detive durante uns minutos com a porta aberta, a mão húmida a segurar a mala, o sobretudo no braço, a olhar para ti na surpresa daquela tua afirmação. Parecias tão certo de que eu não iria a lado nenhum que, por momentos, até achei que era mesmo verdade, que eu não ia sair, que ia ficar ali, naquela sala fria e despida até que tu me desses ordem de liberdade.
Só passados uns bons minutos me dei conta de que tu não és juiz e, portanto, não cagas leis na minha vida e, assim sendo, era a mim e só a mim que cabia a decisão de transpor aquela linha que separava a entrada de casa do corredor sujo do prédio.
Esperei não sei quanto tempo – a mim pareceu-me muito tempo, mas eu nunca tive grande queda para a contabilidade – por mais uma palavra, por um gesto, por qualquer coisa de surpreendente que me prendesse, que me fizesse querer ficar, que mudasse a minha vontade de sair da tua vida ou da minha, já não sei, mas nem uma palavra, nem um gesto, nada de surpreendente.
Tive pena de ti, dos teus olhos afogados em duas profundas olheiras, do teu pijama enrugado e velho e dos teus dentes amarelos do café. Não sei o que é que os dias fizeram de ti, ou o que é que tu fizeste dos teus dias. O resultado visível só me desperta compaixão. Ainda agora, tenho pena de ti e temo que durante o resto da vida isto não mude e a única imagem que eu consiga guardar dentro da cabeça seja esta, a do teu desalinho e da tua autoridade vencida.
A verdade é que não mandas em mim, nunca mandaste. Apesar disso, tudo o que eu sempre quis foi que tu quisesses alguma coisa, nem que fosse mandar em mim, mas não, tu nunca quiseste nada para além daquela triste figura em que te apresentavas. Para ti, a casa era o mundo inteiro por dentro e por fora e ali não era preciso querer mais nada senão que eu dali não saísse.
Não chegava, não chegou. A manhã estava gélida, era Novembro, quase Dezembro e havia corrente de ar no prédio. Eu quis muito dizer-te que te cuidasses, mas a voz não me saía da garganta. Tudo o que consegui dizer-te foi o som mudo da porta a fechar-se atrás de mim. Enquanto percorria o corredor imaginei-te a perseguir-me repetindo tu não vais a lado nenhum, tu não vais a lado nenhum, tu não vais a lado nenhum até me convenceres a ficar, mas não. No corredor, apenas os meus passos e uma fria corrente de ar a perpassar a fazenda do meu casaco.

© [m.m. botelho], ao som de Far from me, de Nick Cave & The Bad Seeds, do álbum The Boatman's Call [1997].



for you dear, I was born / for you I was raised up / for you I've lived and for you I will die / for you I am dying now / you were my mad little lover / in a world where everybody fucks everybody else over / you who are so far from me / far from me way across some cold neurotic sea / far from me
I would talk to you of all matter of things / with a smile you would reply / then the sun would leave your pretty face / and you'd retreat from the front of your eyes / I keep hearing that you're doing your best / I hope your heart beats happy in your infant breast / you are so far from me / far from me / far from me
there is no knowledge but I know it / there's nothing to learn from that vacant voice / that sails to me across the line / from the ridiculous to the sublime / it's good to hear you're doing so well / but really can't you find somebody else that you can ring and tell / did you ever care for me? / were you ever there for me? / so far from me
you told me you'd stick by me / through the thick and through the thin / those were your very words / my fair-weather friend / you were my brave-hearted lover / at the first taste of trouble went running back to mother / so far from me / far from me / suspended in your bleak and fishless sea / far from me / far from me

31.10.08

O meu império

[m.m. botelho]
© [m.m. botelho] | fotografia | porto | outubro de 2008


Nunca gostei de chuva. Não foram poucas as vezes em que, na minha adolescência, apanhei o que se chamam «grandes molhas» à conta de teimar em recusar-me a usar chapéu-de-chuva. Tinha a mania de que se desejasse muito que não chovesse, não choveria.
Naquela altura eu queria ser livre, o mais leve possível, o mais desprendida do chão, do ar e das varetas dos chapéus-de-chuva que não tinham qualquer utilidade a não ser quando chovia. Naquela altura, eu ainda achava que era capaz de controlar o mundo ou, pelo menos, uma parte do mundo ou, vá lá, uma reduzida parte de uma insignificante vida que se movimentava num minúsculo mundo que era o meu império. Naquela altura, eu gostava de arriscar, de sair de manhã de casa a fazer apostas com a cor do céu, apostas pelas quais não tinha recompensa alguma quando ganhava, mas pelas quais arriscava orgulhosamente uma gripe quando perdia.
Eu costumava andar com os livros debaixo do braço, também eles batidos pela chuva quando ela caía, as folhas coladas que haveriam de encarquilhar-se quando secassem, as canetas a romperem-me os bolsos e a lapiseira de minas, a minha velhinha lapiseira de minas preta a furar-me o bolso de trás dos jeans enquanto caminhava.
Nos últimos dias de Outono eu tinha as mãos sempre frias, tão frias que nem sentia as pontas dos dedos. Não usar luvas era sinónimo de mais espaço nos bolsos do casaco para cigarros, isqueiros, walkmans, cassetes e outras coisas sem importância sem as quais na altura achava que não podia viver. As mãos enregelavam, era certo, mas o coração ficava mais quente ao som das canções das bandas que ao fim-de-semana nasciam nas garagens dos prédios dos amigos.
Todos os dias, ao final da manhã, eu fumava um cigarro debaixo da mesma árvore, mesmo quando chovia, mesmo quando estava frio. Os cigarros que fumei debaixo daquela árvore, no pátio do Liceu, foram os cigarros mais despreocupados da minha vida. Naquele tempo, eu não pensava sequer em nicotina, alcatrão, ou no mal que poderia fazer-me um maço de cigarros por dia.
Na verdade, na altura nada me fazia mal, eu não sentia frio, o mundo era ali, debaixo daquela árvore nos intervalos do Liceu, nas garagens aos fins-de-semana, junto às paredes , sob os beirais, nos dias de chuva. O mundo era onde eu estivesse. No meu mundo não era preciso usar chapéu-de-chuva, nem luvas, nem mochila. Eu mandava nas nuvens e aquela árvore do pátio do Liceu era só minha.

© [m.m. botelho], ao som de Fake Empire dos The National, do álbum Boxer [2007].



stay out super late tonight / picking apples, making pies / put a little something in our lemonade and take it with us / we’re half-awake in a fake empire / we’re half-awake in a fake empire
tiptoe through our shiny city / with our diamond slippers on / do our gay ballet on ice / bluebirds on our shoulders / we’re half-awake in a fake empire / we’re half-awake in a fake empire
turn the light out say goodnight / no thinking for a little while / lets not try to figure out everything at once / it’s hard to keep track of you falling through the sky / we’re half-awake in a fake empire / we’re half-awake in a fake empire

8.10.08

Branco

Lia o jornal todas as manhãs. Gostava, de modo especial agora no Outono, de se ir sentar no cadeirão de vime da marquise e ler as notícias impressas naquele papel cinzento que lhe sujava as mãos, lhe encardia as unhas. Perdia-se nas letras e nas horas. Deixava-se envolver com aquela gente cujos nomes apareciam abreviados nas colunas do jornal e dali a pouco era essa gente. Tão depressa estava na China como numa aldeia, tão depressa era corrector numa bolsa como um camionista em greve na fronteira.
Um dia ficou especado perante uma fotografia na página da necrologia. Um homem como ele, exactamente como ele, não fora os óculos e poderiam ser gémeos, as mesmas rugas, a mesma pele macilenta nas maçãs do rosto, o mesmo cabelo grisalho e o primeiro botão da camisa muito apertado, junto ao pescoço. Um homem como ele, da idade dele, ali, numa fotografia ao lado de uma cruz preta, de um nome e de uma família que agradecia a presença de todos quantos acompanharam o saudoso extinto ao local do seu repouso eterno. Poderia ser ele. Pensou que poderia ser ele e ficou a pensar nisso durante muito tempo.
Naquela tarde mal se levantou do cadeirão de vime, mal saiu debaixo da manta que lhe agasalhava os joelhos. Aquela fotografia, naquela folha, naquele jornal, naquele dia atormentavam-no.
À noite foi-se deitar. Abriu cuidadosamente os lençóis que a empregada havia esticado com afinco e sentiu o cheiro do sabão. Gostava do cheiro dos lençóis lavados como de nenhum outro e por isso a empregada pacientemente lhos esfregava e prendia debaixo do colchão. Não se deitou. Sentiu-se sujo, com o cabelo desgrenhado, a pele oleosa, os pés por lavar e os dedos das mãos, os dedos das mãos sempre amarelecidos do tabaco. Puxou os lençóis com força. Depois foi buscar a manta que deixara sobre o cadeirão de vime e cobriu com ela o colchão nu. Deitou-se ali, assim, vestido, sujo, encolhido sobre si mesmo.
Na manhã seguinte, voltou ao jornal, ao cadeirão, à sua manta sobre os joelhos, aos dedos sujos da tinta preta e do papel cinzento. E na página da necrologia, novamente, um homem como ele, não fora os óculos e poderiam ser gémeos, as mesmas rugas, a mesma pele macilenta nas maçãs do rosto, o mesmo cabelo grisalho e o mesmo botão da camisa muito apertado contra o pescoço.
Mas naquela noite já não se deitou sozinho. Vieram os médicos e as enfermeiras amarrá-lo e deitá-lo na cama, temendo que voltasse a arrancar os lençóis. Ele continuou a sentir os pés sujos, a pele oleosa e os dedos, os dedos sempre tão amarelecidos pelo vício que tinha desde os 15 anos.
Antes de adormecer imaginou como seria aquele homem da página da necrologia aos quinze anos, ele tão jovem, ele tão velho, o peito nu a correr na rua e a jogar futebol, o primeiro botão da camisa tão apertado. Era ele, era ele, não fora os óculos, os óculos sem os quais não podia agora ler o jornal e era ele, não um gémeo, ele mesmo, sempre ele na página da necrologia, os lençóis tão lavados e os pés tão sujos, os lençóis tão brancos e aquela cruz tão preta cuja tinta lhe encardia as unhas.

© [m.m. botelho]

20.9.08

Janeiro de 93

Às vezes adormeço e ainda é Janeiro de 1993. Está frio. Acabaram as aulas no Liceu e eu estou de mochila às costas e fato-de-treino vestido a caminho da piscina. Levo encostadas aos ouvidos as almofadas cor-de-laranja de uns headphones com arco, ligados a um walkman onde toca uma cassete do álbum Bigger, Better, Faster More!. Depois, no balneário, lembro-me que amanhã tenho aula de piano e nem pus os olhos em cima do Czerny. Não há-de ser nada. As calças do meu fato-de-treino têm fechos nos tornozelos e a minha falta de perícia para lidar com eles entala uma vez mais o forro. Entretanto a hora chegou e já oiço lá fora o apito estridente do treinador. O balneário fica vazio, eu procuro os óculos no fundo da mochila e enfio à pressa os chinelos nos pés.
Dentro de água não me lembro das canções da cassete, do livro de música, das calças pelo avesso dentro da mochila. Foco todas as minhas atenções na respiração na cadência das braçadas. Vou contando cada uma das 25 piscinas crawl que tenho de fazer enquanto procuro concentrar-me na pernada que tenho de melhorar.

Depois acordo e já é Setembro de 2008. Que é feito dos 4 Non Blondes, do meu Czerny, dos meus headphones, da minha mochila preta? Quase me custa a crer que tenham passado quinze anos, mas passaram mesmo. Já passaram quinze anos e tanta coisa que continua igual, cá dentro, entalada como o forro das calças do meu fato-de-treino azul num fecho que eu ainda não sei correr.

© [m.m. botelho]

22.8.08

Quando tu entrasses por aquela porta

- Eu sei que pode até parecer ridículo, mas palavra de honra que eu tinha aqui à mão, para quando tu entrasses por aquela porta, um disco do Sérgio Godinho para pôr a tocar. Eu sei que tu gostas de Sérgio Godinho e queria fazer-te a surpresa, embora não fosse surpresa nenhuma porque se tu gostas assim tanto de Sérgio Godinho é óbvio que já deves ter ouvido todos os discos dele e provavelmente até sabes as letras todas de cor e salteado e as músicas e até deves ter um álbum ou, ao menos, uma canção, sim, ao menos, deves ter uma canção que seja a tua favorita e que gostes de ouvir mais do que todas as outras, embora, claro, se dizes que gostas assim tanto de Sérgio Godinho, devas ouvir todas as canções indiscriminadamente com o mesmo gosto e, se calhar, até nem tens uma canção ou um álbum favorito. Mas é como te digo, andava aqui à procura desse tal disco e agora não o encontro. Já deves estar a pensar que eu sou um grande palerma por não saber onde enfiei o disco, mas não. Não é que eu seja palerma, eu sou é distraído, porque às tantas peguei no disco e levei-o para algum lado, às tantas está no quarto, ou na cozinha, ou na casa-de-banho, pousado sobre uma cadeira qualquer ou às tantas até caiu para debaixo de algum móvel, que os discos são tão finos, às vezes escorregam de dentro das capas e nós nem nos damos conta, só se derem estrondo ao caírem no chão, senão até rolam para debaixo dos móveis e nós não nos damos conta. O que é certo é que o disco não deve estar aqui, caso contrário já o teria encontrado, aqui, debaixo destes copos e destes jornais que não tive tempo de arrumar mas que queria ter arrumado antes de tu entrares por aquela porta. Isto porque eu queria que tudo fosse perfeito quando tu entrasses por aquela porta, tu com os teus passos largos e decididos, as calças à boca de sino a dançarem de um lado para o outro, as solas dos teus sapatos a pisarem o chão com tanta força que os móveis quase abanam. Eu queria que fosse tudo tal e qual eu imaginei quando tu entrasses por aquela porta, que te sentasses neste sofá, que me pedisses um copo de qualquer coisa e eu te oferecesse gin e tu me pedisses gelo e limão e eu fosse a correr à cozinha buscar as pedrinhas que já estão separadas dentro do congelador à espera de serem chamadas a esfriar a tua bebida. Eu queria que fosse tudo previsível quando tu entrasses por aquela porta, que tirasses os óculos e os pousasses sobre este livro que eu deixei em cima desta mesinha que pus aqui ao pé do sofá, que penteasses os cabelos com os dedos e me pedisses que te fizesse uma massagem no pescoço, reclinando o corpo sobre o meu peito, o meu peito que haveria de ter dentro um coração a bater tão rápido e tão alto que se ouviria no corredor do prédio. Eu queria fosse tudo do teu agrado quando tu entrasses por aquela porta, que elogiasses este par de almofadas que comprei há dias numa loja em saldos a pensar em ti e no quanto tu gostas desta cor, que inspirasses longamente o aroma do incenso que eu pus a queimar quando me disseste que vinhas, que achasses este cinzeiro em forma de pato uma peça bonita e de bom gosto, que o gin não estivesse demasiado quente dentro do copo nem demasiado frio dentro da tua boca. Eu queria que fosse tudo tal e qual como eu queria quando tu entrasses por aquela porta, que os teus lábios dissessem três ou quatro palavras e que depois viessem beijar os meus para neles deixarem o sabor do gin, quem sabe, até que me dissesses que me amas e eu ficasse meio zonzo dentro desta camisa e destas calças que escolhi minuciosamente para usar esta noite. Mas isto tudo, é claro, só poderia acontecer se eu encontrasse o disco do Sérgio Godinho e o pusesse a tocar, o disco que eu ia jurar que tinha deixado aqui em cima mas que afinal, por mais voltas que dê, não encontro. Mas deixa-me ir ao quarto, só pode estar em cima da cama, sim, agora me lembro-me que o levei comigo para o quarto quando fui certificar-me em frente ao espelho que a camisa não me está demasiado justa nem demasiado larga, a mim, que não tenho uma constituição por aí além e que tenho este aspecto franzino de quem vai estilhaçar-se a qualquer momento.


Foi ao quarto. Demorou-se, talvez, meia dúzia de minutos. Apenas o tempo de abrir a porta do guarda-fatos, ver-se ao espelho de corpo inteiro, ajeitar a camisa que afinal lhe ficava mesmo demasiado larga, sacudir as calças, limpar o suor que lhe escorria da testa, pentear os cabelos, cofiar as patilhas e a barba, ajeitar os óculos, enfim, engolir em seco e respirar fundo três ou quatro vezes antes de a enfrentar novamente.
Quando voltou, a sala estava vazia. Sobre o sofá onde ela se sentara o disco do Sérgio Godinho que ele em vão tanto procurara e sobre o disco um bilhete com duas linhas escritas em letra apressada: «Esteve sempre aqui, mas tu nem o viste. Se ao menos tivesses olhado para mim... Se ao menos fosses antes um palerma e não tão distraído...».

© [m.m. botelho], ao som de Às Vezes o Amor, de Sérgio Godinho, do álbum Ligação Directa [2006].



que hei-de eu fazer / eu tão nova e desamparada / quando o amor / me entra de repente / p'la porta da frente / e fica a porta escancarada?
vou-te dizer / a luz começou em frestas / se fores a ver / enquanto assim durares / se fores amada e amares / dirás sempre palavras destas
p'ra te ter / p'ra que de mim não te zangues / eu vou-te dar / a pele, o meu cetim / coração carmesim / as carnes e com elas sangues
às vezes o amor / no calendário, noutro mês, é dor, / é cego e surdo e mudo / e o dia tão diário disso tudo
e se um dia a razão / fria e negra do destino / deitar mão / à porta, à luz aberta / que te deixe liberta / e do pássaro se ouça o trino?
por te querer / vou abrir em mim dois espaços / p'ra te dar / enredo ao folhetim / a flor ao teu jardim / as pernas e com elas braços
às vezes o amor / no calendário, noutro mês, é dor, / é cego e surdo e mudo / e o dia tão diário disso tudo
mas se tudo tem fim / porquê dar a um amor guarida / mesmo assim / dá princípio ao começo / se morreres só te peço / da morte volta sempre em vida
às vezes o amor / no calendário, noutro mês, é dor, / é cego e surdo e mudo / e o dia tão diário disso tudo
e o dia tão diário disso tudo / da morte volta sempre em vida

28.7.08

«Os fumadores morrem prematuramente.»

A chama era alta e quente, ainda mais quente do que o sol que durante o dia tinha entrado pela vidraça e obrigara o gato a ir esconder-se debaixo da secretária, dentro do cesto dos papéis.

Papéis, papéis, papéis.

Não queimava nada mais do que isso e no entanto queimava-se a si mesma naquela labareda que lhe enchia os olhos de cor. Desde a primeira noite daquela ausência que tinha sempre os olhos negros, como que sem vida, desinteressados de tudo e de todos. Tinham já passado largos meses e ela continuava, acima de tudo, desinteressada de si própria.
Pensara enterrar-se no quintal, debaixo da terra húmida, e deixar-se ficar ali até que a fome ou a sede a viessem matar, mas faltava-lhe a paciência para se deixar morrer lentamente de forma consciente. Um amigo próximo dizia-lhe com frequência que a matar-se aos poucos andava ela, por se vergar perante a solidão. «A vida é feita de ausências, de chegadas e partidas, de braços a acenar e de bocas mudas que saem sem tugir nem mugir», concluía o amigo, mas ela parecia não ouvir, como parece sempre não ouvir quem o não quer fazer.

Tinha deixado de fumar, mas uma manhã acordou e achou que o seu corpo sentia falta de nicotina, de algo que a fizesse descolar daquela letargia nem que fosse por breves minutos. Da nicotina, sim. Era, de repente, uma imensa falta de nicotina a entranhar-se-lhe nos ossos. Vestiu-se sem se lavar e atravessou a rua sem olhar. Um carro que passava buzinou-lhe e o condutor gritou-lhe da janela que olhasse por onde andava, pois era demasiado jovem e bonita para morrer tão cedo.
Comprou um pacote de cigarros que tinha inscrito «Os fumadores morrem prematuramente» e sorriu porque se lembrou-me do comentário do condutor que quase a atropelara. «Nunca estamos a salvo», pensou, antes de olhar para a direita, depois para a esquerda e depois novamente para a direita, e atravessar a estrada.
Mal se achou em casa, acendeu um cigarro e inspirou sofregamente o fumo. Sentiu as narinas dilatarem-se, o peito encher-se de ar, a cabeça ligeiramente às voltas. Não fumava havia muito tempo, já quase não sabia como se segurava entre os dedos um cigarro sem o esmagar. Desde esse dia passou a comprar cigarros todas as segundas-feiras e a fumá-los durante a semana.

Foi num sábado à tarde, enquanto pasmava em frente à televisão, que, ao acender um cigarro, reparou na beleza azulada do centro da chama que o riscar do fósforo produzira. Nunca vira um azul tão bonito, tão translúcido, tão diluído com aquele que tremeluzia por detrás da ponta do cigarro. Fumou todos os cigarros que tinha em casa, todos os cigarros que era suposto durarem até segunda-feira de manhã. Achou que ia sentir-se enjoada, mas não. Tudo parecia insignificante se comparado com a sensação de euforia causada por aquela cor azul.
A noite foi entrando. O silêncio instalara-se entre o pacote de cigarros vazio, o seu corpo sozinho em casa, a televisão muda porque não passava nada de interessante, os livros a ganharem pó nas estantes, o gato quieto na almofada. A euforia desapareceu para dar lugar apenas a uma memória que parecia queimá-la por dentro. E nesse fogo ardiam as saudades trazidas por aquela ausência que ainda a consumia.

Levantou-se e foi à cozinha buscar a lata. Todos a achavam um tanto excêntrica por guardar cartas de amor entre o chá e não em delicadas caixas de veludo e papel, como era suposto. Bilhetes de viagens, de concertos, de sessões de cinema e teatro, umas quantas entradas de museu, guardanapos de papel, contas de cafés e pastéis de nata, post-it de várias cores e folhas de tamanho A4 muito dobradas, com os vincos já muito gastos e rotos, tudo numa mistura inseparável e impossível de organizar, tal como a sua vida. Enquanto remexia na papelada, lembrou-se das palavras do amigo - «A matares-te aos bocados andas tu.» - e chorou. Sentiu pena de si mesma, dos seus cabelos compridos em desalinho, muitos deles já brancos, expostos, como que desnudados aos olhares complacentes dos poucos que a visitavam esporadicamente. Olhou para as mãos e pareceu-lhe ver mais rugas do que ontem. Era o pico do Verão e ela era absolutamente invernal, tão fria, tão fria que era precisa a euforia da chama de um fósforo para que sentisse algum calor.

Espalhou pelo chão as suas cartas de amor que mais não eram do que recortes daqueles anos em que tinha deixado de fumar, em que a vida lhe parecera suficientemente preciosa para não a desperdiçar em expirações de fumo e dedos amarelos. Pegou num fósforo e acendeu com ele todos os papéis que conseguiu.

Papéis, papéis, papéis.

Não queimava mais do que isso e era ela mesma quem ardia no chão da sala, encarquilhando-se depois do lume a consumir, enegrecendo e desfazendo-se como cinza. Nos minutos que se seguiram, ela não foi mais nada senão as suas próprias cartas de amor, as suas memórias, o seu lixo acumulado numa lata de chá. E sentia-se desfalecer à passagem daquele azul tão bonito, tão translúcido, tão diluído que nascia do centro das chamas.
O gato fugira. Talvez estivesse outra vez enfiado no cesto dos papéis. Pensou na sorte do gato, que era tanta: bastava-lhe fugir para debaixo da secretária e tudo se resolvia. Foi enfiar-se também ela debaixo dos lençóis e não quis pensar em mais nada.

No domingo de manhã, com as cinzas, enterrou definitivamente no jardim as memórias e a ausência daquele amor epistolográfico. Tal como imaginara no primeiro dia de solidão, assim se sepultou a ela mesma, no quintal, debaixo da terra húmida e deixou-se ali morrer lentamente de forma consciente.

© [m.m. botelho]

25.7.08

Tique-taque

Enquanto o tempo não for todo nosso, quero manter no pulso este mesmo relógio cuja pilha pede substituição. Enquanto o tempo não for só nosso, não quero ouvi-lo tiquetaquear.

[Já te disse que não quero que estes ponteiros se movam?]

© [m.m. botelho]

5.7.08

Trouxas de ovos

«Muito bem! Muito bem! Muito bem! Brava!», gritava ela estridentemente, enquanto batia palminhas, de cada vez que a cadela enfezada se punha a fazer habilidades na carpete da sala. Eu sorria, engolia em seco, achava que no fundo até lhe achava alguma graça. A verdade é que não lhe achava graça nenhuma. Por isso é que de cada vez que a porta se fechava atrás daquela matrona eu suspirava de alívio e ia estender-me na cama, os pés para cima, a almofada sobre o rosto e assim ficava durante umas boas duas horas.

Um dia, ela veio, sentou-se pesadamente na poltrona e, muito chorosa, contou-me que a cadela morrera, assim, inesperadamente. Disse-me que suspeitava do vizinho do lado, «Um careca que passava a vida a ameaçar que qualquer dia lhe cortava o pio. E não é que cortou mesmo?» e depois pediu-me desculpas por estar para ali a levantar falsos testemunhos contra o tal careca que, afinal, agora já era «o Senhor Engenheiro Carvalhal». Eu acenava pateticamente com a cabeça, lamentava com ela a sua perda «irreparável» e estendia-lhe a caixa dos Klenex para se assoar.

Mal se foi embora, agarrei na lista telefónica e sentei-me à escrivaninha. Procurei na letra "C" os Carvalhais e lá apareceu um, felizmente só um, que era engenheiro e morava na mesma rua que ela. Só podia ser aquele o tal careca. Escrevi-lhe imediatamente um bilhete curto mas directo, agradecendo-lhe o facto de ter envenenado o raio da cadela, afinal de contas, um grande favor para a carpete caríssima que cobria o chão da minha sala.

Ela só voltou no mês seguinte. Disse-me que trouxera trouxas de ovos para o lanche e eu odiei-a ainda mais um bocadinho de cada vez que, entre os goles de chá, ela abria a bocarra para engolir de uma só vez cada uma delas. Depois de enfiar nove trouxas de ovos pela goela abaixo olhou horrorizada para o pratinho e disse que nem tinha reparado que apenas sobrara uma e eu nem sequer as tinha provado. Desfez-se em desculpas, como era já seu hábito, e disse que me deixava aquela para eu «pelo menos, lhe sentir o gosto». Eu agradeci como se o gesto dela tivesse alguma coisa de altruísta e não se devesse à mera vergonha de ter devorado a caixa inteira em menos de nada.

Comer de enfiada nove trouxas de ovos haveria de ter, não surpreendentemente, as suas consequências e teve-as. Dali a uns minutos, começou a queixar-se de um mal-estar e perguntou-me se poderia usar a casa-de-banho. Por dentro, explodi um sonoro «não», mas da minha boca soou um simpático «mas é claro que sim», ainda estou para saber porquê.

Ela lá ficou tempos infinitos na casa-de-banho, pensava eu que a ler o monte de jornais que eu lá tinha, alguns com mais de meio ano, perfeitamente inúteis e desactualizados. Entretanto, comi a trouxa de ovos e achei-a deliciosa, não demasiado doce, não demasiado seca, não demasiado minúscula. Fiquei com água na boca para comer outra, mas como já não havia, encolhi os ombros e lambi os dedos, um pouco desconsolada. Encostei-me no sofá e, sem dar por isso, acho que passei pelo sono. Quando acordei, ela ainda não voltara e o tempo parecia-me já muito. Achei por bem investigar o motivo da demora.

A ambulância levou, talvez, uns cinco minutos a chegar. Ela não dizia nada, nem ai, nem ui. Tinha os olhos muito esbugalhados e o rosto vermelho, os lábios grossos cobertos de uma espuma esbranquiçada e as mãos e os pés muito inchados. O médico nem chegou a abrir a maleta, limitando-se a dizer ao enfermeiro que ela já estava cadáver. Perguntou-me o que se passara e eu lá contei a história do chá e das trouxas de ovos.

Os meus vizinhos foram espreitando às portas de casa deles e, depois, invadindo a minha. Depressa se espalhou a notícia de que ela havia comido uma dúzia, vinte, trinta, quarenta, cinquenta trouxas de ovos e que a gula, esse pecado capital tão desprezível, a matara impiedosamente na minha casa-de-banho.

Não sei precisar se dois, se três dias depois, o carteiro tocou-me à porta para me entregar uma carta inesperada.

Agradeço-lhe tê-la envenenado. Assim ela se inquiete nos Infernos tanto quanto nos inquietou na Terra. E mais lhe digo que essa das trouxas de ovos foi de mestre. E assim ficámos quites, n'est pas?

Estranhei a pergunta e demorei-me muito tempo a olhar para o papel. Depois peguei outra vez no envelope e li o remetente. Era um tal de Carvalhal.

© [m.m. botelho]

2.7.08

Imprevisibilidade

Deitei-me cansada, mas feliz, já passava das três da manhã. Acordei ainda não eram oito, ensonada, mas pronta para mais um dia de reboliço. Li o jornal, tomei o pequeno-almoço. Espreitei as mensagens de e-mail, apenas quarenta e sete (outras tantas haverão de chegar antes das seis da tarde). Afinal, ao trabalho já destinado para hoje juntou-se mais algum. Só depois de o carteiro passar por aqui saberei como, quando e onde terminará o meu dia.

Gostaria que acabasse como ontem imaginei que acabaria: à mesa contigo, o teu olhar no meu, eu deitada no teu sorriso.

Habituei-me e passei até a desejar uma grande dose de imprevisibilidade na minha vida. Sobre a dúvida do mundo cá em baixo, a certeza do azul do céu basta-se e basta-me.

© [m.m. botelho]