16.1.08

Slow motion

Quando me perguntaste se queria café, chá ou um whisky, palavra de honra que o que me apetecia mesmo era o chá, mas acabei por optar pelo whisky porque julguei que, quem sabe, um pouco de álcool nas veias aumentasse a velocidade das coisas entre nós. Tudo é lento, tudo é sempre tão lento entre nós que às vezes nem sei a quantas ando, quanto tempo passou desde que cheguei ou desde que me fui embora. Não é que quantificar os minutos seja importante, mas é sempre aconselhável o domínio desse elemento constantemente presente na vida de toda a gente.
Ainda me lembro de que, no início das nossas conversas, achávamos ambos que as horas eram sempre escassas, que tanto havia ficado por dizer, que era absolutamente imperioso e essencial repetirmos o encontro. Como é possível, então, que de lá para cá, o correr das coisas se tenha tornado tão penoso para ambos que damos por nós a suspirar pelo dia seguinte?
No fundo, sucedeu - e isto é apenas possível, apenas uma teoria minha, elaborada a partir do (meu) senso comum, sem qualquer sustentação científica ou outra - que

nós ficámos demasiado acelerados para o tempo do mundo.

Quisemos tudo ao mesmo tempo. Chorar, rir, ver, ouvir, sonhar, concretizar, acreditar e sentir. E nada disto pode fazer-se em simultâneo a não ser que estejamos dispostos a deixar para trás muitas outras coisas. E a verdade, a inteira, nua e crua verdade é que nem tu, nem eu estivemos alguma vez dispostos a deixar para trás fosse o que fosse. E por isso fomos arrastando as coisas connosco, tanta tralha às costas, até ao momento em que se tornou insustentável prosseguir caminho com tamanha bagagem. Foi então que começámos a fazer pausas, a pedir «tempo», como se o tempo, lá porque estávamos separados, corresse mais devagar.
Fomos ingénuos, na altura, ao pensarmos que tudo se resolveria caso estivéssemos um pouco afastados, caso conseguíssemos organizar as nossas vidas e logo nós, que éramos sempre tão organizadinhos, nós, que tínhamos tudo sob controle excepto o que nos estava a acontecer.
Como era de esperar, o whisky não surtiu qualquer efeito e tudo continua insuportavelmente lento entre nós. E não será nenhuma bebida, nenhuma distância, nenhuma outra coisa senão a nossa vontade que há-de voltar a ter domínio sobre o que era nosso, sobre o que éramos nós. Mas para isso seria necessário que nós ainda fossemos possíveis e, como tu sabes, eu continuo com imensas coisas às costas, objectivos que egoisticamente delineei para mim, planos que desejo concretizar para meu simples bel-prazer, tudo coisas que não tenciono partilhar contigo nem com ninguém, logo, digamos que estou um pouco indisponível para que nós possamos acontecer outra vez.
Não me interessa por aí além saber se tu terias essa disponibilidade porque, a bem dizer, já pouco me interessa o que quer que seja que venha de ti. Por isso bebi o whisky de um só trago e acabei com a lentidão entre nós. Agora sim, que o copo está finalmente vazio, posso pagar a conta e sair. Por isso, por obséquio, podes dizer-me

quanto é?

© [m.m. botelho], ao som de Foolish Love, de Rufus Wainwright, do álbum homónimo [1998], aqui ao vivo.



I don't want to hold you and feel so helpless / I don't want to smell you and lose my senses / and smile in slow motion / with eyes in love
I twist like a corkscrew / the sweetness rising / I drink from the bottle, weeping / why won't you last? / Why can't you last?
so I will walk without care / beat my snare / look like a man who means business / go to all the poshest places / with their familiar faces / terminate all signs of weakness
oh, all for the sake of a foolish love / I will take my coffee black / never snack / hang with the wolves who are sheepish / flow through the veins of town / always frown / me and my mistress, the princess / oh, all for the sake of a foolish love
So the day noah's ark floats down park / my eyes will be simply glazed over / or better yet / I'll wear shades on sunless days / and when the sun's out, i'll stay in and slumber / oh, all for the sake of a foolish love / all for the sake of a foolish love
'cause I don't want to hold you and feel so helpless / I don't want to smell you and lose my senses / and smile in slow motion / with eyes in love

14.1.08

Absolutamente

© [m.m. botelho] | fotografia | janeiro de 2008

Mirou-a de soslaio e o olhar prendeu-se-lhe outra vez, como todas as vezes, na dobra que o tecido do casaco preto fazia no cotovelo. Foi escorrendo, placidamente, pelo braço até chegar ao pulso, depois à mão, tão firme e tão delicada, as unhas sempre tão bem aparadas, tão limpas, tão sóbrias, como convém às pessoas sérias. E ali ficou preso, inteiramente cativo daquelas mãos namoriscando o pacotinho de açúcar, depois a chávena de chá, depois a colher, numa dança de roda em que todos os objectos daquela mesa queriam ser o seu par.
Sentiu vontade de lhe segurar as mãos e ficar ali muito tempo a observar com admiração cada gesto que ela desenhava com a ponta dos dedos. Mas não havia muito tempo, a noite já ia alta e ela tinha alguém à espera. Sustendo a respiração, disse-lhe apenas, ela já meio corpo fora do carro, os cabelos encobertos pelo nevoeiro da madrugada, os braços esticados e o casaco já sem dobras que lhe prendessem o olhar
- Já lhe disse que amo, absolutamente, as suas mãos?
Ela sorriu, sem se deter, e mergulhou definitivamente no breu, toda inteira, uma luva caída na calçada batida, numa noite fria de inverno e névoa.

© [m.m. botelho]

27.12.07

Sem título

O tempo fechou

[todas]

as janelas por nós.

© [m.m. botelho], ao som de If we cannot see, dos Devics, do álbum Push the heart [2006].



you were born with a heart that can never be filled / and a head like snow that can never be still / there are streets paved in gold that shine so bright / that you force yourself to look away
if we can't see now, we might never see / we only kill ourselves more slowly / if you can't find love, then you will finally see / how we kill ourselves slowly
the words that fall from your mouth / they crystalize and break on the ground / and everything you want, you can't have / but you force yourself to look away
if we can't see now / we might never see / we only kill ourselves more slowly / if you can't find love, then you will finally see / how we kill ourselves more slowly
if you can't find me then you can't find love / if you close your eyes then will finally see / that you're already here with me

20.11.07

Um improvável adeus

O desenho dos teus ombros, o ténue som dos teus passos rápidos, uma silhueta esguia que lentamente se afasta, até se tornar pequenina, tão pequenina que os meus olhos deixam de a ver. A imagem que guardo de ti, a imagem da tua ida, por entre as gotas de chuva que te encharcavam o casaco, a mesma chuva que escorria pelo vidro do meu carro.
- Graças a Deus está a chover.
Não quero acreditar que não voltarei a ter a tua cabeça repousando no meu ombro
- Porque é que o mundo não é só aqui e agora, a minha cabeça sobre o teu peito?
não quero acreditar que não terei mais o castanho aguado dos teus olhos perdido nos meus, a tua gargalhada genuína nos meus ouvidos
- Gosto tanto de te ouvir rir.
o teu cheiro a invadir as minhas noites
- Gosto tanto de estar aqui contigo.
Não quero acreditar que te irás, assim tão depressa, sem que eu tenha sequer levantado um pé do chão
- Isto tudo é tão improvável...
sem que eu tenha sequer tido a possibilidade de não gostar de ti.
- Quero que te fixes, essencialmente, nessas características terríveis que eu tenho e que te tiram do sério.
Tinha sempre tantas saudades tuas, mesmo quando estava contigo.
- Vais fazer-me falta.
Vou ter tantas saudades tuas...
- Tarde demais, eu não consegui evitar.
Não quero que vás, mas pouco importa o que eu quero
- Isso é um problema meu, que eu tenho de resolver.
pouco importa que eu me tenha dado inteiramente a ti, pouco importa se eu me dei e tu não aceitaste
- Dei o melhor de mim e acho que dei tanto.
pouco importa se foi ridículo, estúpido ou qualquer outro adjectivo que eu lhe queira chamar enquanto o meu peito definha perante a dor
- A inteligência é fatal, a ignorância é menos mortífera.
a verdade vem sempre à tona
- Não te cobro nada.
afinal de contas, entre nós, nunca houve promessas.
Levaste-me uma dor, deixaste-me outra e, em adição, a memória de ti,
- Esta memória é uma cruz.
a memória de todos os momentos em que foste presente e em que agora sentirei mais a tua ausência.
- Esta é a última frase que te digo antes de abrires a porta do carro e saíres...
O Outono, este ano, foi tão quente e tão frio,
- Terei saudades tuas durante muito tempo, mas depois passa.
tão quente no teu sorriso, tão frio no teu silêncio, no teu olhar fixo em mim, na tua mão segurando a porta, no meu sinal para que fosses, no desenho dos teus ombros, o ténue som dos teus passos rápidos, uma silhueta esguia que lentamente se afasta, até se tornar pequenina, tão pequenina que os meus olhos deixaram de a ver.
A chuva começou a morrinhar quando o meu carro desenhou a curva e o teu seguiu em frente, quando os meus olhos se fecharam sem a luz dos teus, quando a manhã cinzenta começou a abrir. Foi madrugada e tu não estavas comigo. Mais nenhuma madrugada contigo.
Sei que morrerei um bocadinho. A cada dia que passa morremos um bocadinho, mas os dias sem ti depois de ti matar-me-ão um pouco mais do que o esperado, como o lume que consome o cigarro cujo fumo se escapa pela nesga da janela aberta, no meu solitário regresso a casa.
E sabes que mais? Nunca fomos ao teatro. E eu tenho a certeza de que teria amado ir ao teatro contigo.

© [m.m. botelho], ao som de Voltar, de Rodrigo Leão, do álbum O Mundo (1993-2006) [2006], aqui ao vivo.



manhã cinzenta / faz-me chorar / a chuva lembra / o teu olhar
as folhas mortas / caem no chão / a dor aperta / o coração
quanto eu não daria / para poder voltar atrás / volta para o meu peito / daqui não saias mais
perdi minha dor / para te encontrar / na solidão / do teu olhar
no teu olhar / se perde o meu também no mar / se perde o céu
quanto eu não daria / para poder voltar atrás / volta para o meu peito / daqui não saias mais

18.11.07

Pronome possessivo

Estava para ali a olhar para esta página em branco, para ali a pensar no que haveria de escrever, se é que haveria de escrever alguma coisa. Tinha acabado de pousar o copo, bebericara um pouco de água quando nisto bateram à porta. Do lado de lá do intercomunicador perguntaram se, apesar da hora tardia, me importava de abrir e deixar entrar. Disse que não me importava. As horas estão presas dentro dos relógios, a cada segundo que passa os ponteiros fazem-lhes cócegas na barriga, como aos bebés que dormem o dia inteiro e a quem nada importa a não ser que nunca lhes desapareçam da vista as grades do berço. As horas estão presas dentro dos relógios, dizia, por isso «Façam o favor de entrar, não se acanhem. Façam de conta que a casa é vossa».
Perguntei-lhes depois o que queriam, mas afinal não queriam nada de concreto, apenas entrar, sentar-se um pouco no par de cadeiras que tinha diante de mim e ficar a olhar para o tecto, para a janela, para as aguarelas que mancham a parede. Ofereci-lhes água, que mais não tinha, «Não se preocupe que bebemos pelo mesmo copo. Não queremos dar trabalho e certamente quando chegámos estava a meio de qualquer coisa». Respondi que mesmo quando não estamos a fazer nada estamos sempre a fazer alguma coisa, porque nada já é alguma coisa, não é? «Pois, realmente, é».
Olharam-me com ar de comiseração por mim e recostaram-se entre os braços da cadeira. Perguntei-lhes se se importavam que continuasse a olhar para a página em branco, a ver se, com a sua presença, me saía alguma coisa para encher a folha, «Não, claro que não nos importamos. Continue para aí a mirar a palidez do papel e não cuide de nós, que nós por cá nos arranjamos».
Algum tempo depois saiu-me uma palavrinha ou duas e comecei a escrevê-las. A tinta preencheu meia linha da folha. À minha frente, «Ai, que se faz tarde! É melhor irmos andando que ainda adormecemos aqui». Levantei-me, abri a porta e desejei-lhes boa noite. Saíram em silêncio, sorrindo à passagem por mim.
Depois de fechar a porta ouvi comentar que lá fora estava frio, «Agora sim, já parece Inverno. Este ano praticamente não tivemos Outono.», os passos a afastarem-se a as vozes a ficarem cada vez mais sumidas, cada vez mais sumidas, até que deixei de as ouvir.
Voltei para a secretária e pus-me a olhar para a folha agora já não totalmente em branco, apenas com uns rabiscos de tinta e li o que escrevera. E não me apeteceu escrever mais nada, nem sequer reler o que havia escrito, porque o tecto pareceu-me bem mais interessante e igualmente imaculado. E quedei-me para ali a olhar para os fios do candeeiro que o esventravam e concluí que já eram horas de me ir deitar. Ando a dormir mal porque nunca me dá o sono e eu não me obrigo a ir para a cama. Esta noite posso obrigar-me a ir para a cama mais cedo e mesmo que não durma vou ficar por ali a olhar para o tecto, afundando os olhos no escuro.
Mesmo antes de adormecer, lembrei-me do que escrevera no papel e de como não me ocorreu mais nada nem poderia. No canto da folha escrevera a data, um pouco mais abaixo escrevera o teu nome, imediatamente a seguir a um pronome possessivo que não faz qualquer sentido estar ali. O teu nome não condiz com aquele pronome possessivo e por isso o discurso interrompeu-se. Na verdade, o teu nome não condiz com folhas brancas, nem com a tinta que sai da minha caneta nem com nada do que tenho espalhado por aqui dentro da cabeça e que não me deixa dormir. As visitas tardias foram-se embora quando leram escrito na minha melhor caligrafia, no máximo do meu esmero, o teu nome. A seguir à data o teu nome e depois do teu nome mais nada, nem sono nem coisa nenhuma. Resta o espesso do carvão da noite que inunda os meus olhos no meu quarto escuro.
Se me baterem à porta já não me levanto. Quero ficar aqui a pensar nas questões gramaticais dos pronomes possessivos antes dos nomes e nos nomes a seguir às datas. Estamos presos como as horas dentro dos relógios, agora percebo isso e não sei se gosto. O sono há-de vir e amanhã rasgo o papel e começo tudo de novo. Alguma coisa há-de vir à ideia. Não sei quem esteve cá, sei que entraram e saíram e que lá fora faz frio. O sono há-de vir e há-de apagar o teu nome de dentro de mim como a chama se apaga nas velas, queimando-o, juntamente com todos os pronomes possessivos e todas as datas e as minhas insónias.
Continuará a fazer frio lá fora e isso é tudo o importa. Afinal de contas, «Até parece que estamos no Inverno, não parece?», pois parece, «Este ano nem tivemos Outono!», tivemos sim, mas nem demos por ela, «Pois, realmente, não demos por ela, não».

© [m.m. botelho]

13.11.07

à superfície de mim

ainda agora chegaste e já
o vento te soprou
para longe
só porque a noite
caiu entre nós
volta quando o dia raiar
quando a luz
do sol for perfume
espalhado na tua pele
tisnada
deixa-te pousar
à superfície de mim
quando a madrugada
despontar neste imenso céu
do outono que foi tecto
do nosso encontro


© [m.m. botelho]

12.11.07

Oxalá

A maior angústia não é saber-te desse lado do rio. A maior angústia talvez seja saber que queres muito saltar para a minha margem, mas não o fazes. Uma angústia tão grande como as noites que passo sem ti, uma angústia do tamanho da eternidade que não se pode medir porque os nosso braços esticados não chegam.
Já te disse tantas coisas que quase sinto que tudo está gravado no granito há que tempos. Abrir os olhos ao amor é quase tão difícil como abri-los debaixo de água. O sal a corroer-nos, o desconforto, a visão turva. Tudo isso e muito mais faz a nossa inércia. E a dor é infinitamente maior e muito mais pungente.
O amor é, provavelmente, o mais fácil de conseguir. Tudo o resto, o resto de tudo é que é desafiante almejar.
Eu ouso. Oxalá hoje queiras tu também ousar. E, então, o teu colo será habitáculo do repouso da minha cabeça, o teu ventre lençol dos meus beijos e os teus cabelos resguardo dos segredos que te direi baixinho, antes de adormeceres. Oxalá.

© [m.m. botelho]

10.11.07

Metade

Começa-se
Sempre
a meio das coisas


Adília Lopes (n. 1960), «13 poemas fáceis», inéditos em «O Escritor», revista da A.P.E., n.os 15/16/17, Março/1991.


Eu e tu começámos a meio de qualquer coisa. A meio de nós, talvez. Dois corpos vagantes que se confundiram um dia sob uma intensa luz branca. Dois pares de olhos que, durante a eternidade que dura uma noite, se diluíram um no outro, debaixo de um candeeiro de onde pingava uma claridade amarelecida. Dois rostos que se perderam de si mesmos enquanto o ruído do silêncio que habitava as nossas bocas se afogava num ritmo ensurdecedor e vertiginoso. Duas mãos que se desmembraram na escuridão de uma rua alcatroada de uma cidade barulhenta tão quieta e calada naquele instante.
Eu e tu não nos cruzámos antes porque então era o princípio. Eu e tu não nos cruzaremos depois porque então será o fim. Cruzámo-nos agora, a meio das coisas, de todas as coisas. Seguiremos em direcções opostas, que o tempo não se compadece com nada, muito menos connosco. A minha estrada segue para Norte, a tua para Sul, paralelamente, mas sem nunca se cruzarem. Diria que fomos um acidente de percursos independentes que nunca ninguém saberá explicar como e porquê se encontraram.
Eu e tu fomos só metade de algo que começou a meio. A outra metade divide-se em duas. Uma delas vai comigo, a outra fica caída junto à berma do teu caminho. Vai-te embora e nunca olhes para trás, não quero que olhes para trás. Não quero que me vejas estancada à tua espera. Segue o teu trilho e deixa-me o meu. A meio das rotas, das vidas, das horas que marcam o relógio começam-se muitas coisas, mas nenhuma delas se termina. Acabam-se as coisas sempre pela metade. Nós acabámos pela metade. E é a incompletude tudo o resta.

© [m.m. botelho], de rajada. Por dentro quero acreditar que faz algum sentido, apesar de cá fora tudo parecer tão desconexo.

Ouve-se, no Viagens Interditas, Lie To Me, dos Devics, do álbum Push The Heart [2006].



you're wasting all your time here / riding around in the sun / alone and idling / come wander back to me / you know I'll always be there
lie to me, lie to me / make like you love me / lie to me, lie to me, oh
with this one you never go / and this one you never show yourself / with this one you tell it all / and turn your world into a ghost town
lie to me, lie to me / make like you love me / lie to me, c'mon it's easy, oh
don't think of what we can't be / I know what you need and you know that you like it / the name you were born with / your soul on your sleeve / let me believe in something

31.10.07

Recadinhos

Amanhã, passa de novo por aqui. Se me encontrares, pergunta-me por mim e dá-me recadinhos. Eu dir-me-ei que te vi e que o sol deixou fiapos no teu cabelo...
Se me encontrares, eu estou por aqui.

© [m.m. botelho]

20.10.07

O inesperado encontro

Li algures, num rodapé de um noticiário televisivo, que já é Outono. E esta? É Outono e eu nem dei por nada.
O calor continua lá fora, o frio continua cá dentro. Tudo ao contrário, portanto. Continua tudo de pernas para o ar.
Dentro do elevador que me leva ao destino, as portas dos vários andares vão passando por mim. Estou parada, tudo o resto é que se move. Dentro dos elevadores o mundo é que anda para cima e para baixo atrás de nós, à nossa procura.
Quem está de fora não vê,
nem mesmo tu vês
mas cá dentro também eu ando à tua procura
numa viagem algures entre um rés-do-chão e um sexto andar.
Conheci-te num dia de Outono.
Andava há tanto tempo à tua procura.
Os nossos olhos cruzaram-se e eu voltei a olhar em frente. Como a porta de um andar para quem vai dentro de um elevador, passaste por mim depressa.
Agarrei-te,
interrompi, algures, a tua viagem
tive-te num dia de Outono e deixei-te escapar
disseste que tinhas já a tua rota traçada.
A estação voltará todos os anos. Tu talvez não voltes. Escolheste ir embora no mesmo dia em que chegaste. E eu agarrei-te, mas deixei-te ir. E nem dei por nada.

© [m.m. botelho], ao som de Não Vá Embora (O Inesperado Encontro), de Marisa Monte, do álbum Memórias, Crônicas e Declarações de Amor [2000].



e no meio de tanta gente eu encontrei você / entre tanta gente chata sem nenhuma graça, você veio / e eu que pensava que não ia me apaixonar / nunca mais na vida
eu podia ficar feio só perdido / mas com você eu fico muito mais bonito / mais esperto / e podia estar tudo agora dando errado pra mim / mas com você dá certo
por isso não vá embora / por isso não me deixe nunca nunca mais / por isso não vá, não vá embora / por isso não me deixe nunca nunca mais
eu podia estar sofrendo caído por aí / mas com você eu fico muito mais feliz / mais desperto / eu podia estar agora sem você / mas eu não quero, não quero
por isso não vá embora / por isso não me deixe nunca nunca mais / por isso não vá, não vá embora / por isso não me deixe nunca nunca mais / por isso não me deixe nunca nunca mais

1.10.07

Fosses tu

© [m.m. botelho]
© [m.m. botelho] | fotografia | oeiras | setembro de 2006


Fosses tu uma ave ou uma folha
E o Outono te viria desprender


Daniel Faria [1971-1999] | A Casa dos Ceifeiros | Associação de Estudantes da Faculdade de Teologia do Porto | 1993

26.9.07

Causa-efeito

As mãos suadas. As têmporas a latejar. O batimento cardíaco em altos decibéis dentro da cabeça. Os dentes cerrados. A expressão fechada. A respiração contida. Os olhos meio-húmidos. A incapacidade de concentração. O silêncio, o silêncio, o silêncio. O coração aos pulos dentro do peito. O pensamento perdido não sei [ou sei? já nem sei] por onde. A fadiga repentina. A falta de apetite. O sono a teimar não chegar. O corpo às voltas na cama. Uma terrível enxaqueca. O dia à porta outra vez. Slideshow em flash no escuro do meu quarto. Tudo isto, ali, bem diante do nariz. A vida, ali, tão à flor da pele.

Tu. Tu. Tu.
Sempre e outra vez tu.
Tu tão longe e tão por dentro.

© [m.m. botelho], ao som de A culpa é da vontade, um inédito de António Variações, interpretado por Humanos, do álbum homónimo [2004].



a culpa não é do sol / se o meu corpo se queimar / a culpa é da vontade / que eu tenho de te abraçar
a culpa não é da praia / se o meu corpo se ferir / a culpa é da vontade / que eu tenho de te sentir
a culpa é da vontade / que vive dentro de mim / e só morre com a idade / com a idade do meu fim / a culpa é da vontade
a culpa não é do mar / se o meu olhar se perder / a culpa é da vontade / que eu tenho de te ver
a culpa não é do vento / se a minha voz se calar / a culpa é do lamento / que suporta o meu cantar
a culpa é da vontade / que vive dentro de mim / e só morre com a idade / com a idade do meu fim / a culpa é da vontade

25.9.07

Relação directa

Quanto maior a nossa distância, mais penosa a tua presença.

© [m.m. botelho]

10.9.07

Morrer outra vez

começo a acreditar que um dia
hei-de morrer mesmo

outra vez

© [m.m. botelho]

9.9.07

Enxurrada

andei muito tempo a desejar sair daqui
mas a chuva arrastou na enxurrada o meu coração
e eu voltei atrás para o agarrar

de novo o meu coração entre as mãos
sujo da água dos esgotos
do jorro da imundície dos outros
do que os outros deitaram fora

© [m.m. botelho]

7.9.07

Dúvida

Quis ficar ali, estática, impassível, a deixar-me somente trespassar pelo teu olhar. Quis morrer naquela fracção de segundo em que todos os dias morreram. Quedar-me eternamente rígida como os ponteiros do relógio quando se sobrepõem. Fugir de mim mesma, fugir por dentro e por fora de mim. Quis tantas coisas e, no entanto, queria apenas o profundo silêncio, o peso da ausência de tudo. Ser soterrada, imersa, absorvida. Qualquer outra coisa que não fosse ver-te ir, qualquer coisa que não fosse consentir à desesperança que cobrisse os nossos corpos. Quis deixar-me ensurdecer pelos teus gritos mudos, pela estridor dos teus lábios imóveis. Esvaecer em sangue e nevoeiro. Desfalecer, diluir-me, gotejar até ao fim. Prantear a minha própria miséria e maldizer tal sorte. Suster a respiração até entorpecer as pernas e os braços e permitir ao meu coração bater desgovernadamente enquanto não deixasse de sentir saudades tuas. Desde aquele momento continuo a não saber se há lembrança desse amor que um dia esbanjou assim a minha alma. Não sei, até hoje, se a perversidade conseguiu vencer a paixão. Nunca mais voltei a olhar cá para dentro. Temo deixar de te notar a falta, de te querer. Não tenho habilidade alguma para tirar conclusões sobre isto que é a vida real. Recuso-me a parir do interior uma dúvida ainda maior do que esta. Naquela noite tu morreste e eu fiquei moribunda. E sem certezas algumas sobre o desejo da cura.

© [m.m. botelho], ao som de Fado da Dúvida, dos Madredeus, do álbum Faluas do Tejo (2005).



se já não lembras como foi, / se já esqueceste o meu amor, / o amor que dei e que tirei, / não queria lamentar depois. / mas uma coisa é certa, eu sei. / não tive nunca amor maior. / e ainda vivo o que te dei, / ainda sei quanto te amei, / ainda desejo o teu amor.

não tenho esperança de te ver, / não sei amor onde andarás. / pergunto a todo o que te vê / e nunca sei como é que estás. / agora diz-me o que farei / com a lembrança deste amor. / diz-me tu, que eu nunca sei, / se voltarei ou não para ti, / se ainda quero o que sonhei.

5.9.07

Trilho

Eis que caem as palavras. Deixá-las escorrer pelo decote, sorvê-las no meu próprio ventre, cuspi-las no sexo. A minha vulva húmida de palavras. Beijar muito o branco destas paredes, até ter os lábios gretados pela cal. Lamber o silêncio do chão, das solas dos teus sapatos, dos dedos dos teus pés. Enlouquecer, enroscada como animal no tapete. Gravar com as unhas o teu nome em toda a parte. Ir pela madrugada fora. Sentir o corpo pesado. Deixar palavras molestas vertendo por onde eu passar. E consumir-me, por aí, no trilho fundo que o meu gozo rasgar.

© [m.m. botelho]

3.9.07

Palavra de honra

eu faria um esforço
- palavra de honra que faria -
para fingir não me importar muito
caso tu tivesses avisado
que, afinal,
não seria bem o que todos
- eu incluída -
esperavam,
mas tão somente aquilo que tu
muito bem entendias

no tão pouco desta escassez de ti que agora me rodeia
compreendo
[?]
por fim, o quanto
podemos enganar-nos
- a nós próprios e aos outros -
sobre aquilo que é possível
receber.

as tuas mãos estendidas
espelham bem o nada que tens para me dar

és tu quem está de mãos vazias,
sem teres onde te agarrar e,
contudo,
sou eu quem
desamparada
cai

tu não notas
- ninguém nota -
sequer que eu faço um incomensurável esforço
- palavra de honra que faço -
para fingir que não dói muito
e depressa me levantar

© [m.m. botelho]

31.8.07

Mal-entendido

Eu deste lado a dizer-te «olá».
Tu desse lado a dizeres-me «adeus».

Eu deste lado a dizer-te «até sempre».
Tu desse lado a dizeres-me «até nunca mais».

Eu deste lado a gritar que te amo.
Tu desse lado em completo silêncio.

Eu deste lado, eu sempre aqui.
Tu desse lado, tu não sei onde.


© [m.m. botelho], ao som de Patience Is A Virtue, de Rufus Wainwright, do álbum Release The Stars [2007].

patience is a virtue, I will name you after patience / wanting to be there, but being able to wait / patience is a baby that I'd really love to give you / So he can take care, 'stead of staying out late
I wake up in the morning, take my tea or coffee / look at the world out the window / listening to church bells, weddings, funerals / hell of a sound, want you around
could this be the answer, answer to all my confessions? / are you the difference between glitter and tears? / or is there still no reason, and I am once more mistaken / putting all my emotions into porcelain ears
I wake up in the morning, take my tea or coffee / look at the world out the window / listening to church bells / praying for you, down on my knees / what do I do?
patience is a virtue, I will name you after patience / patience is a baby that I'd really love to give you / blame it on black steeples and listening to church bells ringing / or watching the people passing me by / weddings and funerals passing me by

2.8.07

Mais do que o teu sorriso perfeito

© [m.m. botelho]
© [m.m. botelho] | fotografia | vila do conde | agosto de 2007


Enquanto escrevo, os Camera Obscura fazem cócegas nas colunas do computador. Ouço Books Written For Girls. A voz cálida de Tracyanne Campbell é entrecortada apenas pelo som das teclas a afundarem-se sob a pressão dos meus dedos.

You can compliment me on the style of my hair...

Ergo-me da cadeira e abro a janela. De cada vez que a abro penso sempre a mesma coisa, que esta janela é enorme, tão grande que um dia me engole, me mastiga os ossos e os cospe lá para fora.

You probably thought I had more upstairs...

Regresso à sonatina de caracteres. Escrevo. A claridade do monitor vai inundando a sala, revelando lentamente o que está escrito nos papéis que se espalham sobre a secretária. Há uma ou outra fotografia nesta sala. Quase todas captadas por ti, que eu nunca fui grande fotógrafa. Falta-me a perspicácia e os bons reflexos para disparar no momento certo, na posição correcta, com a iluminação ideal, ou seja, tudo o que tu tens para dar e vender.

Can't see through your perfect smile...

Também não sou grande modelo. Sempre achei que fico mal nas fotografias, mesmo nas que foram tiradas por ti. Às vezes olho e penso que nem pareço eu. Gostava que as fotografias mostrassem mais do que aquilo que os olhos podem entender.

He prides himself on being a man of the world...

Na rua vai um grande reboliço. Já é tarde, mas é Verão e as pessoas aproveitam o bom tempo para virem arejar as suas solidões para a minha rua. Os mais ocupados (ou tímidos), como eu, limitam-se a ficar dentro das casas e a abrir as janelas porque não têm tempo (ou coragem) para mais.

In the darkest of places he gets his thrills...

Os passeios não sentem a falta de gente como eu. Até agradecem o bom senso que me leva a ficar aqui fechada. As calçadas não gostam de gente solitária que tem consciência da sua solidão, preferindo os que a disfarçam em ajuntamentos de final de tarde. Tanta gente desconhecida. Tanta gente que não se conhece.

I think separation is okay...

Da secretária não vejo a rua. Ouço apenas os barulhos, mas não sei de onde vêm. Ouço as vozes, mas não vejo os rostos. Não sei se quem passa é velho ou novo, se homem, se mulher. Da rua não se vê a minha secretária. De lá de baixo ninguém sabe quem fustiga estas teclas. Não sabem quem sou, a que cheiro, de que cor são os meus cabelos.

You're not star to guide me anyway...

Gosto de ficar por aqui mesmo quando já não se ouve ninguém. Sob o peso das horas, a minha solitude há-de brindar com o silêncio da noite não sei a quê. E a quietude será tanta cá dentro como lá fora, tanta nos outros como em mim.

A fool... played by your rules...

Enquanto vou escrevendo vou-me lembrando de todas as pessoas que passaram aqui hoje e que eu não sei quem são. Imagino-as agora em casa, com as televisões ligadas num canal com chuva, descalçando os sapatos, palpando os pés inchados, o cheiro do suor impregnado nas roupas que despem e atiram sobre as cadeiras, as mãos húmidas segurando o despertador, os suspiros provocados pelo calor, o peso da imensa tristeza por mais um dia ter chegado ao fim. Quase posso vê-las a mirar a sua própria sepultura, certas de que um dia a mais é sempre um dia a menos, certas de que a terra que hoje pisaram amanhã há-de cobri-las.

People get shattered in many ways...

Tu não passaste por aqui hoje, nem ontem, nem em nenhum dos dias que correram desde a última vez que aqui estiveste. Posso dizer que já não sei quem és nem a que cheiras embora ainda guarde bem viva na memória a cor dos teus cabelos. Imagino-te também a ti contando as horas que faltam não sei para quê. Também para mim e para ti um dia a mais é sempre um dia a menos, também a nós nos espera um buraco sem fundo quando já não tivermos de ajustar o despertador.

They can disappoint you...

Todos os dias são dias de fim para alguém e esse alguém somos muitas vezes nós mesmos. Estou tão farta de enterrar pessoas vivas. Estou tão farta de sepultar em silêncio e frio e seco tanta gente. Tão farta de, sempre que me lembro de ti, imaginar o teu retrato sobre um monte de terra que te cobre o corpo todo e te apaga da superfície da minha vida. Ao menos tu ficas sempre bem nas fotografias. O teu sorriso é sempre perfeito. Deve ser por isso que quando olho para o teu rosto eternizado no papel sou capaz de ver muito mais do que os olhos podem entender.

When you see through their perfect smile...

© [m.m. botelho], ao som de Books Written For Girls, dos Camera Obscura, do álbum Underachievers Please Try Harder [2003].



you can compliment me on the style of my hair / give me marks out of ten for the clothes that I wear / you probably thought I had more upstairs.
I disappoint you. / can't see through your perfect smile.
he likes to read books written for girls. / he prides himself on being a man of the world. / in the darkest of places he gets his thrills.
He will disappoint you / If you see through his perfect smile.
I think separation is okay. / you're not star to guide me anyway. / you only wanted me to play. / a fool... played by your rules.
now my door has swollen from the rain. / god knows we'll never see her face again. / people get shattered in many ways.
they can disappoint you / when you see through their perfect smile.