11.6.08

De um azul tão bonito de que eu gosto tanto

© [m.m. botelho] | fotografia | junho de 2008

1.
Deixei-me ir pela noite dentro agarrada ao computador, aos livros, às montanhas de folhas de papel que me enchem a secretária, ao meu lápis Staedtler «Mars Lumograph» HB azul, de um azul tão bonito de que eu gosto tanto. Deixei-me ir pela noite dentro a escrever, a riscar, a sublinhar, às vezes segundo a orientação da régua, outras a pulso livre. Tu sabes bem como eu gosto de trabalhar às horas tardias, quando a cidade já dorme, os carros escasseiam e eu posso ter a ilusão de que estou sozinha no mundo, debaixo do céu escuro, apenas eu e o som da música que toca no leitor de cd. Tu sabes melhor do que ninguém que eu me deixo entusiasmar pelo som enternecedor do meu teclado esmagado sob os meus dedos, este teclado sem fios supostamente tão moderno que me impingiram por um pequeno balúrdio.

2.
Se ainda não estou na cama contigo, a teu lado, o meu corpo ao lado do teu, sobre o teu, dentro do teu, é porque a noite me chama para que escreva, para que a escreva, para que me escreva e eu não posso dizer-lhe que não, nem fazê-la esperar. A noite está sempre cheia de pressa como eu, sôfrega de gente que possa tornar noctívaga e roubar a camas quentes como a nossa.

3.
Há ainda tanto por fazer. Quase parece que comecei agora e que hoje é sempre ontem na corrida contra o tempo. Às vezes imagino que não vou conseguir respeitar o prazo e tenho vontade de sair por aí a riscar as paredes da casa, todas as paredes de todas as divisões da casa inteira, carregando muito no lápis, partindo o bico no fim de cada linha só para ter de o afiar, afiar, afiar, afiá-lo até desaparecer todo o azul e restar só a extremidade preta, pequenina, a confundir-se com a noite e a perder-se nela. E todos estes livros e papéis evaporar-se-iam no ar, como o fumo dos cigarros, e deixariam, simplesmente, de existir.

4.
Não importa o que diga, a verdade é só uma: eu gosto de estar aqui, soterrada nas minhas preocupações, a queixar-me de que durmo mal há anos porque há anos que me deito com algo para fazer no dia seguinte. Tu sabes que eu costumo dizer que só queria acordar uma manhã e não ter nada que fazer, nenhum sítio onde ir, ninguém com quem falar. Acho que gostaria de saborear uma manhã em que os meus olhos se abrissem por vontade própria e eu ficasse ali, estática, debaixo dos lençóis a cheirarem a lavado a olhar para o tecto do quarto, sem dizer nada, sem pensar em nada a não ser na felicidade imensa que imagino que seja acordar a não ter uma única preocupação a atormentar-me o espírito e a carne.

5.
Prometi a mim mesma que isto haveria de sair de mim, de se despegar da minha roupa e de me encher os dias do calendário. Não quero passar o resto da vida a pensar que é amanhã, que é depois, que é depois de depois, que é no dia seguinte. De uma vez por todas, quero poder engavetar os lápis, encadernar papéis e arrumar os livros na estante.

6.
Antes de subir para me ir deitar, costumo pensar no quanto tudo ficou mais fácil desde que tu chegaste. Sei-te aqui ou seja onde for, mas sei-te sempre comigo. Deve ser por isso que ninguém me leva muito a sério quando me ponho a zurzir contra tudo e contra todos, a maldizer a minha vida, as minhas escolhas, a achar-me a mais miserável de todas as criaturas humanas. Desde a tua chegada, ninguém acredita que eu possa ser outra coisa que não seja feliz. Todos gabam a paciência com que tu, todas as noites, a par do sono, vens e me tiras os óculos, os dobras cuidadosamente e pousas sobre a secretária. Todos gabam o modo carinhoso como me afagas os cabelos e me lembras que são horas de dormir. Invariavelmente, eu deixo-me guiar pela tua mão, o corpo aos trambolhões escadaria acima. Tombo na cama e adormeço profundamente. Tu voltas a descer para caiares as paredes da casa que eu risquei e reconstruíres estes lápis que eu triturei no afiador, estes lápis azuis, de um azul tão bonito de que eu gosto tanto. Eu nem dei por nada, mas agora sinto-o por inteiro: tudo ficou bem melhor depois de tu chegares.

© [m.m. botelho], ao som de The Build-Up, dos Kings of Convenience (aqui com a participação de Feist), do álbum Riot On An Empty Street [2004].



the build up lasted for days / lasted for weeks, lasted too long
our hero withdrew, when there was two / he could not choose one, so there was none
worn into the vaguely announced / worn into the vaguely announced
the spinning top made a sound like a train across the valley / fading, oh so quiet but constant 'til it passed / over the ridge into the distances / written on your ticket to remind you where to stop / and when to get off

4.6.08

Mar

© [m.m. botelho] | fotografia | porto | outubro de 2007


Deixa que o cheiro do mar se enrede nos teus cabelos. Encosta o búzio ao ouvido e escuta as ondas que bailam só para ti. O sal que te mancha os pés veio com elas, tal como eu vim
para ti
com a maré vaza daquele fim de tarde de Outono.

© [m.m. botelho]

28.5.08

Na primeira noite em que disseste que me querias

tinha inúmeros papéis em cima da secretária
papéis que deixei ao abandono
na primeira noite em que disseste que me querias

a corrente de ar empurrou a porta
e ela fechou-se atrás de mim

algumas letras caíram no chão
outras voaram janela fora
desprenderam-se da tinta e partiram livres
para amar

foi na primeira noite em que disseste que me querias
que nasceram novas palavras
de paixão e vento

© [m.m. botelho]

20.5.08

Tarte de limão


© [m.m. botelho] | fotografia | 20 de maio de 2008

Mousse de chocolate. E mais houvesse. Barriga. E mousse. Afinal, uma fatia de tarte de limão a meias contigo. Já dividida, disse ele. Dois pratos, dois garfos, duas bocas. Uma fatia de tarte de limão a meias. E a vida inteira contigo.

© [m.m. botelho]

19.5.08

Denúncia e acusação pública de plágio

A 9 de Abril de 2008 escrevi e publiquei neste blogue um texto sob o título «Era uma vez» [ligação]. A 17 de Maio de 2008 aparece publicado noutro blogue, com o qual nada tenho que ver, assinado por alguém que se dá por "Sigur Head" [perfil no blogger] um texto intitulado «Era uma vez» [ligação].
Este texto é uma cópia do meu texto, cópia essa que não foi autorizada e da qual não consta a identificação da fonte de onde foi retirada. Comparem-se ambos os textos [os negritos são meus]:

- texto escrito e publicado por mim neste blogue:

«Quando olho para o castanho amendoado dos teus olhos, tenho vontade de me aninhar no teu peito, de repousar a cabeça sobre o teu ombro e pedir-te, muito baixinho, a voz quase sumida, muito nasalada - as narinas invadidas pelo cheiro da tua roupa acabada de lavar -, que me contes uma história.
Depois fecho os olhos e quase me é possível ouvir-te dizer «Era uma vez...», enquanto os teus dedos esguios me afagam os cabelos.
Era uma vez... e contas-me a nossa história, sem príncipes nem princesas, sem castelos ou dragões, apenas a história de quem andava ali, num trilho muito próximo e paralelo sem nunca, no entanto, se haver cruzado. Contas-me a história dos nossos caminhos, a história dos nossos corpos vizinhos um do outro, a história desse vidro opaco que nos ocultava mutuamente. [...]
Era uma vez... e contas-me como os meus olhos se afundaram nos teus, como o meu corpo se fundiu no teu, como fiquei prisioneira de nós naquele nosso primeiro encontro, naquele nosso inesperado encontro. [...]»

- texto publicado no outro blogue:

«Quando te vejo tenho vontade de me aninhar no teu peito de repousar a cabeça sobre o teu ombro e pedir-te baixinho que me contes uma história. Fecho os olhos e quase me é possível ouvir-te dizer «Era uma vez...» e contas-me a nossa história, apenas a história de quem andava ali num trilho muito próximo e paralelo sem nunca no entanto se ter cruzado. Contas-me a história dos nossos caminhos a história desse vidro opaco que nos ocultava mutuamente.
Era uma vez...
Contas-me como os meus olhos se afundaram nos teus, como meu corpo se fundiu no teu.
[...]»


A isto se chama plágio, daquele mesmo descarado, feito por alguém que, provavelmente, não foi capaz de pensar pela sua própria cabeça e preferiu recorrer a essa prática que infelizmente prolifera um pouco por toda a parte, mas de modo particular na blogosfera, e que nos bancos da escola se chama, sem mais, «copianço». Às vezes copiam-se ideias, nos casos mais graves, copiam-se mesmo as expressões, como sucedeu aqui. Expressões inteiras, frases inteiras. Custa acreditar, mas é mesmo verdade. Está à vista.
Esta atitude revela um profundo desrespeito pelo processo criativo da obra literária, para além de evidenciar uma enormíssima falta de carácter. Não creio que se trate somente de falta de imaginação ou capacidade. É, acima de tudo, uma pública e notória demonstração de falta de vergonha, uma grandessíssima, inenarrável, inqualificável lata.

A propósito, vale a pena recordar algumas notas sobre os direitos de autor, permanentemente visíveis ao fundo deste blogue [acrescentando alguns esclarecimentos a negrito]:
» O âmbito do direito de autor e os direitos conexos incidem a sua protecção sobre duas realidades: a tutela das obras e o reconhecimento dos respectivos direitos aos seus autores.
» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
» Obras originais são as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, qualquer que seja o seu género, forma de expressão, mérito, modo de comunicação ou objecto.
» Uma obra encontra-se protegida, logo que é criada e fixada sob qualquer tipo de forma tangível de modo directo ou com a ajuda de uma máquina [mesmo na blogosfera].
» A protecção das obras não está sujeita a formalização alguma. O direito de autor constitui-se pelo simples facto da criação, independentemente da sua divulgação, publicação, utilização ou registo [incluindo a blogosfera].
» O titular da obra é, salvo estipulação em contrário, o seu criador.
» A obra não depende do conhecimento pelo público. Ela existe independente da sua divulgação, publicação, utilização ou exploração, apenas se lhe impondo, para beneficiar de protecção, que seja exteriorizada sob qualquer modo [como, por exemplo, através de um blogue].
» O direito de autor pertence ao criador intelectual da obra, salvo disposição expressa em contrário.

Solicito, pois, publicamente, a quem, sem autorização, plagiou o que eu escrevi que apague daquele texto o excerto copiado.

Adenda [em 19 de Maio de 2008, pelas 11h30]:
O texto em questão foi integralmente apagado. Por isso, aqui ficam duas imagens para documentar o sucedido e para que esta denúncia e acusação não fique desprovida de sentido. A primeira é a da pesquisa no Google que localiza o mesmo texto em ambos os blogues e a segunda é um print screan do post contendo o plágio a partir da cache daquele motor de busca [ligação provisória].



© [m.m. botelho]

16.5.08

A sétima curva


Wassily Kandinsky | Moscovo I | 1916
Tretyakov Gallery | Moscovo | Rússia


À sétima curva, ouviu os pneus do carro derraparem no asfalto. Sentiu os músculos das mãos rígidos, como que absolutamente imersos em goma-laca. Viu-se incapaz de controlar o volante girando entre os dedos. O som da borracha a derrapar no alcatrão ensurdeceu-a. Bateu com a cabeça no tejadilho, o cinto de segurança começou a asfixiá-la. O corpo sacudia-se ao ritmo das voltas que o carro dava. À sétima curva despistou-se.
Não soube contar o tempo até que parou, mas contou cada um dos rodopios. Um, dois, três, quatro. Ouviu o pára-brisas quebrar-se. Susteve a respiração o mais que pôde. O sangue começou a escorrer-lhe do nariz, quente, pastoso. Pensou que partira um braço, talvez uma perna, talvez as duas. Os pedais enredaram-se-lhe nos pés. Achou-se presa numa gaiola de lata e fumo.
Nos minutos que se seguiram ao embate lembrou-se de todas as pessoas a quem já não via há muitos anos. Pensou como o tempo e a distância, por muito curtos que sejam - podem divorciar-nos uns dos outros. Tanta gente do outro lado da cidade, apenas a meia dúzia de passos, e há tanto tempo se não viam. O turbilhão das manhãs de trânsito, o frio da neve a entranhar-se nos ossos, o cansaço dos dias de trabalho a acumular-se sobre o casacão pesado. Tantos e tão genuínos motivos para regressar rapidamente a casa e adiar uma, outra, todas as vezes o cruzar de olhos com tanta gente de quem, desfalecendo naquele carro, sentiu repentinamente saudades.
Moscovo parecia-lhe sempre povoada de fantasmas, gente muito magra ou muito gorda, muito bela ou muito feia, muito jovem ou muito velha, mas toda ela desconhecida, gente que deslizava sobre as calçadas escorregadias, gente que mais não era do que manchas na paisagem, que mais não era do que a fumaça que lhe saía das bocas e rasgava o ar frio.
O corpo, dentro do carro, enregelava lentamente. À sétima curva, nem vivalma. Por aquela estrada não passava ninguém. Deixou-se ceder e afogar no sangue que lhe encharcava as roupas. A vista da cidade emoldurava-lhe o rosto maltratado pelo embate. Ao fundo,o turbilhão daquela manhã de trânsito, o frio da neve a entranhar-se nos ossos, o cansaço dos dias de trabalho a acumular-se sobre muitos casacões pesados. À sétima curva, enfim, adormeceu e com ela levou Moscovo inteira na memória.

© [m.m. botelho]

Texto [também publicado aqui] escrito a convite do blogue «A Dobra do Grito», inserido no ciclo «Kandinsky provoca bloggers».

13.5.08

Sinto o sol por dentro

O dia está a terminar. O céu já não mostra o sol, as nuvens já não parecem tão brancas como o algodão ou as peúgas do barbeiro onde o meu pai corta o cabelo. Quando me lembro do barbeiro do meu pai, ouço o barulho do afã da pequenina tesoura que tem sempre entre os dedos. E vejo as madeixas de cabelo do meu pai caírem desamparadas no chão frio de linóleo da barbearia. A vassoura da menina Arminda há-de juntá-las a um canto. Mas isto já sou eu a perder-me nas palavras.

Todas as noites seguro entre as mãos as madeixas dos teus cabelos, separo-as com os dedos, sinto-lhes o cheiro do teu champô com extractos de argila. O sol mostra-se nos teus olhos. O cão adormece pachorrento aos nossos pés, a claridade do nosso amor não o perturba. É essa luz que me faz enfrentar todos os meus medos, que se dissipam, nuvens brancas como o algodão empurradas pelo vento. Contigo sinto o sol por dentro, mesmo se o dia já terminou.

© [m.m. botelho], ao som de Come Feel The Sun, dos Tindersticks, do álbum The Hungry Saw [2008].



why don't you come out / the guards have gone / they forgot their purpose and shuffled / their lungs have come feel the sun
why don't you come out / the dogs lie sleeping / their lips they twitch with the chills in their dreams / they come feel the sun
why don't you come out / and exact your revenge / and the liers and wasters / that call themselves friends / for to forgive is overrated / as they need but your affiance / so come feel the sun
why don't you come out / we are missing / your wife and babies / that just want to hold you / so come feel the sun / touch your fears / make everything the same as it was

30.4.08

Chinelos

Hoje arrumei os meus chinelos emparelhados com os teus na despensa. Fiquei a olhar para eles durante muito tempo, a ver como ficam bem os nossos chinelos lado a lado, sobre o branco frio do pavimento da despensa.
Antes, costumava pasmar, literalmente, durante horas perante as nossas escovas de dentes no mesmo copo. Olhava tanto para elas que quase as via enroscarem-se uma na outra, dizerem coisinhas bonitas e enamoradas ao ouvido uma da outra, rirem muito às gargalhadas do tubo de dentífrico, sempre tão inchado, tão sozinho e tão altivo no seu canto. Eu sei que por ti o nosso tubo de pasta de dentes teria como companheiro permanente outro tubo de pasta de dentes, mas parece-me um desperdício de dinheiro ter dois tubos de pasta de dentes abertos ao mesmo tempo. Além disso, as escovas, coitadas, haveriam de sentir-se apertadas, esmagadas uma de encontro à outra, e já não poderiam andar por ali a vaguear, dentro do copo, de mão dada.
A despensa é grande. Ainda podemos comprar muitos pares de chinelos, sapatos, botas, galochas e ténis e guardá-los lá, lado a lado, que nenhum deles se sentirá apertado. Tenho a certeza de que, por muito tempo, os nossos chinelos darão longos passeios a par. Passeios como os que nós damos quando os nossos corpos se encaixam debaixo dos lençóis e o odor dos teus cabelos é brisa que nos empurra, mar afora.

© [m.m. botelho]

23.4.08

Tudo é possível.

Eu quis muito amar-te.

[Quis muito aprisionar a noite dentro do meu carro, segurar entre os dedos os minutos que escorriam do meu relógio de pulso, emoldurar o teu rosto iluminado pelos faróis dos carros que passavam. Quis muito desenhar as curvas do teu corpo na lua cheia, contar cada um dos teus cabelos debaixo das árvores, resgatar-te àquele asfalto que os teus ténis calcavam. Quis muito suster a tua respiração no frio, prender o teu grito de gozo nos vidros embaciados, entrar em ti, ser o teu sangue. Quis muito permanecer entre os teus dentes com a forma do meu nome enlaçado no teu.]

É como te digo, eu quis muito amar-te, de todas as formas, as que cabem nas palavras e as que as extravasam, as que ficam presas na barragem do meu coração e as que passam as comportas do meu peito.

[Muito, de todas as formas, mesmo antes de te querer amar.]

Eu quis muito tudo isso e consegui.

[Desde então,]

acredito no que me disseste, que tudo é possível, mesmo o inesperado, mesmo o improvável, mesmo o imprevisto. Eu quis muito e assim foi.

[Quando Setembro chegar, vamos andar de bicicleta a par, mandar vir contra o vento, beber o sol, esvaziar o mar.]

© [m.m. botelho], ao som de Os dias são à noite, dos Madredeus, do álbum O Paraíso [1997]. Aqui na versão do álbum Euforia [2002], ao vivo, com a participação da Flemish Radio Orchestra.



os dias são à noite / e as noites são de dia. / se acordo contigo / a mim abraçado / o sono perdido / não deixa cuidado.
os dias são à noite / e as noites são de dia. / se acordo contigo, / se estou a teu lado, / é doce o caminho / deste meu fado.
os dias são à noite / e as noites são de dia.

9.4.08

Era uma vez

Quando olho para o castanho amendoado dos teus olhos, tenho vontade de me aninhar no teu peito, de repousar a cabeça sobre o teu ombro e pedir-te, muito baixinho, a voz quase sumida, muito nasalada - as narinas invadidas pelo cheiro da tua roupa acabada de lavar -, que me contes uma história.
Depois fecho os olhos e quase me é possível ouvir-te dizer «Era uma vez...», enquanto os teus dedos esguios me afagam os cabelos.

Era uma vez...
... e contas-me a nossa história, sem príncipes nem princesas, sem castelos ou dragões, apenas a história de quem andava ali, num trilho muito próximo e paralelo sem nunca, no entanto, se haver cruzado. Contas-me a história dos nossos caminhos, a história dos nossos corpos vizinhos um do outro, a história desse vidro opaco que nos ocultava mutuamente.
Era uma vez...
... e contas-me a história de uma tarde banal como qualquer outra, se exceptuarmos o facto de que foi uma tarde demasiado quente para aquela altura do ano. Contas-me como os meus dedos marcaram o teu número, como a tua voz delicada atendeu do lado de lá, falas-me da minha surpresa ao escutar-te e do sobressalto em que ficou o meu peito quando desliguei e me fiz à estrada, ao teu encontro.
Era uma vez...
... e contas-me como os meus olhos se afundaram nos teus, como o meu corpo se fundiu no teu, como fiquei prisioneira de nós naquele nosso primeiro encontro, naquele nosso inesperado encontro. Dizes-me que fiquei refém de todas as tardes de Estio que se seguiram àquela, todas elas também demasiado quentes para a época. E relembras-me cada recado que te escrevi e tu nunca leste, cada palavra que te disse e tu nunca escutaste, cada beijo que te dei e tu nunca sentiste, cada pedido que te fiz e tu nunca atendeste.
Era uma vez...
... e contas-me como resististe às tuas certezas, como me fizeste sentir incrédula das minhas, como quase me levaste a desistir da ideia de nunca mais acordar para um dia em que tu não estivesses a meu lado. Trazes-me à memória que te despediste de mim como quem foge de si mesmo, que atravessaste aquela passadeira em passo rápido enquanto o meu carro ficou parado no sinal vermelho - um grande sinal vermelho, redondo, imenso, ofuscante, quente como as nossas tardes que nunca foram nossas. Recordas-me que nem sequer olhavas para mim, eu atrás daquele imenso pára-brisas e tu nem sequer voltavas a cabeça para ver se era mesmo eu ou apenas um carro igual ao meu. A cada pausa tua para respirar, é como se sentisse de novo como os teus ténis calcando o alcatrão me tatuaram a pele.
Era uma vez...
... e contas-me a história do nosso (re)encontro, novamente através de uma linha telefónica, novamente a tua voz delicada do lado de lá e o meu peito em sobressalto. E falas-me do nosso inesperado (re)encontro, aquele que eu sempre acreditei que aconteceria, mesmo quando deixei de acreditar que viria a acontecer.
Era uma vez...
... e daí em diante roubo-te a palavra e sou eu quem te fala de tudo quanto de nós fizemos desde então, de como as tardes se mostraram sempre quentes, independentemente do mês do calendário, de como não mais acordei para um dia em que tu não estivesses a meu lado.
Era uma vez...
... e, beijando-me a testa, rematas com um «viveram felizes para sempre». Sorrimos, as nossas bocas fecham-se num beijo e acreditamos que sim, embora tanto eu como tu saibamos que, «para sempre é sempre por um triz» e que a vida se encarregará de nos mostrar «se é perigoso a gente ser feliz»*.

© [m.m. botelho]

* Versos de «Beatriz», canção de Edu Lobo e Chico Buarque.

7.4.08

O amor que eu te tenho

Antes de tudo eras tu, eu e o resto do mundo que não víamos e que achávamos não existir.

No princípio era o amor que eu te tinha. No princípio, partindo do ponto de partida de tudo, recuando até ao início de nós, que foi quando eu abri aquela porta e te vi naquela cadeira, naquela mesa, naquela sala, olhando fixamente para a porta que eu abria, a porta que rangia ligeiramente, para o meu corpo a entrar na sala ao som dos meus passos apressados a rasgar o silêncio. No princípio era o amor que eu te comecei a ter dentro daquela sala e que foi saindo pelas frestas das janelas, por debaixo da porta e que se espalhou por todos os lugares. No princípio era o amor que te tenho e que ficou colado ao teu sorriso, à minha boca, aos estofos do meu carro e ao escuro das longas noites que passámos mesmo ali, junto ao começo do mar.
No fim – o fim de cada instante que percorre o tempo e a distância entre o passado e o futuro, continuamente –, ainda é o amor que tenho. Agora. Agora. Agora. Do princípio ao fim – a cada fim que passa, que é e já não é, para nunca mais voltar a ser, – apenas e só o amor que eu te tenho, fora daquela sala, dentro de mim, dentro de ti, em toda a parte.

© [m.m. botelho], ao som de Kiss Me, Oh Kiss Me, de David Fonseca, do álbum Dreams In Colour [2007].



so when the fight is over / and the storm is through / now will you pick another? / what will you get into?
so you stand in the corner / with those boxing gloves on you / you’re old, scared and lonely / yeah we've all been there too... / we've been all there too...
kiss me, oh kiss me / if that can make it right / try me, find me, / just throw them on me... / those failed expectations / floods and afflictions you're through / 'cause I just might, take them home with me.
and the cracks in the pavement / yeah we've all fell there before / and bones built into skeleton / we've all been through that door.
kiss me, oh kiss me / if that can make it right / try me, find me, / just throw them on me... / those failed expectations / floods and afflictions you're through / 'cause I just might...
kiss me, oh kiss me / will that make things right? / try me, find me / just throw them on me... / those failed expectations / floods and afflictions you're through / 'cause I just might... / I just might, take you home.
kiss me, kiss me, / we've all been there too / kiss me, kiss me / we have all been there too. / kiss me, kiss me / we've all been there too / kiss me, kiss me / so kiss me...

2.4.08

Devoção

Orar com fervor no templo que é a tua boca.

© [m.m. botelho]

23.3.08

Carpete [parte 2]

São, precisamente, 03h52. Abri a porta do nosso quarto e do teu vestido, sobre a cadeira, nem sinal. No seu lugar, umas calças minhas, muito velhas, muito amarrotadas, que uso frequentemente para andar em casa. Como é possível que não esteja lá o teu vestido? O que raio fazem ali aquelas calças? No armário da casa de banho, contudo, há uma embalagem do teu champô. Vazia. Em vão tento recuperar o cheiro dos teus cabelos, mas nada. Nada. Nada. Começo outra vez às voltas pela casa, a abrir todas as portas, todas as janelas, chamando por ti, os dentes rangendo nervosamente na minha boca, gritando o teu nome que parece não querer ficar nunca dentro de mim, mas tu não respondes, mas tu não estás.

Falta um minuto para as 04h00. O frio de novo nos pés, os pés de novo dentro dos chinelos, a manta no colo mas que, todavia, já não me vale de nada. Estou outra vez gelado, sozinho, o suor a escorrer-me da testa para o rosto, as pernas meio trémulas. Começo a pigarrear. Lembro-me da vizinha de cima. A tosse sacode-me o corpo como para me despertar da letargia
ela já não está cá, ela nunca esteve cá
mas eu prefiro continuar a dormir acordado. O estupor da vizinha de cima bateu outra vez com a vassoura no chão, amanhã vai pôr-me a campainha outra vez imunda. Não me interessa o que ela diz, nem o que a tosse me faz, só espero ainda ter desinfectante para limpar aquilo tudo muito bem limpo, senão vai mesmo com álcool.

Já passa um pouco das quatro da manhã. Olho a carpete que agasalha o centro do chão da nossa sala. Nela, vejo nitidamente uma linha da cor vermelha da bainha do teu vestido vermelho, um cabelo negro da cor dos teus cabelos negros, várias manchas de cinza espalhadas e entranhadas. Cinza dos teus cigarros, cinza feita do ar que os teus lábios levaram até ao cigarro que se consumiu como eu agora me consumo. Na aparelhagem, uma canção qualquer que deve ser do Sérgio Godinho, que só pode ser do Sérgio Godinho.
Por isso, pouco me importam as evidências. Eu sei que tu não te foste embora, eu sei que
tu ainda andas por cá, tu sempre estiveste cá.

© [m.m. botelho]

Carpete [parte 1]

São 03h04. O ponteiro dos segundos está quase quase a chegar ao minuto seguinte mas ainda não chegou. Ah. Agora sim. São, exactamente, 03h05. Tenho uma manta no colo, os chinelos enfiados nos pés, gelados. Não é que esteja propriamente frio, eu é que tenho uma tremenda dificuldade em aquecer.
Acabaram-me os cigarros, mas não me faz grande diferença. Fumando menos, tusso menos e assim já não incomodo a vizinha de cima, que ainda hoje me bateu à porta para me dizer que não descansa de noite por causa do meu pigarrear. A parva. Soubesse ela o quão rápido vou buscar o desinfectante e um pano para limpar a campainha de todas as vezes que ela lá pespega o dedo. Tem as unhas sempre porcas e cheira a fritos. Quero lá saber que não durma de noite. Que ponha algodão nos ouvidos. Tem aquele pescoço tão encardido que nem deve saber, sequer, o que é algodão. Até me dá comichão só de falar na mulher. O que interessa é que se amanhã me aparece aqui lhe sopro o fumo do cigarro em cheio para a cara, a ver se tossirá ou não. E depois que não se queixe de mim
- Vê, Sô Dona Belarmina, como fumando também a senhora tosse?
ou fecho-lhe a porta na cara. Assim, sem mais.

São, exactamente, 03h11. O ponteiro dos segundos acabou de passar no zero. São, exactamente, 03h11 e o teu vestido continua pendurado na cadeira, ao Deus-dará, o cinto a cair mais para um lado do que para o outro, os botões do decote todos desapertados, a bainha da saia descosida. De cada vez que abro a porta do nosso quarto, vejo-o abanar com o vento
não imaginas a corrente-de-ar que, mesmo com a porta fechada, há no nosso quarto
e é como se te visse a ti, dentro dele, a abanares-te toda ao som de uma canção qualquer do Sérgio Godinho
e eu, tão insensível, nunca achei graça a nenhuma das canções do Sérgio Godinho
os braços para um lado, as pernas para outro, como se fosses feita de trapos mas cheirasses sempre a alfazema.
Na verdade, tu cheiravas sempre bem, mesmo quando não cheiravas a nada. O teu vestido não cheira a nada, que é o mesmo que dizer que cheira a ti,
sabes que o cheiro da cebola nos teus dedos não cheirava a cebola?
que cheira ao perfume dos teus cabelos quando o vento mo trazia pela manhã, antes de saíres para o trabalho.

São agora 03h17 e o teu vestido continua imóvel sobre a cadeira. Se ao menos o teu vestido caísse ao chão, se ao menos se mexesse
afinal, há corrente de ar no nosso quarto!
eu pegava nele e enfiava-o no armário de novo, ou num saco plástico, ou no tambor da máquina de lavar roupa, que desde que tu não lavas os teus vestidos também não se mexe. Ele não fala - o tambor da máquina de lavar roupa - mas de certeza que se falasse me diria que tem saudades do cheiro dos teus vestidos dentro dele, a tocarem-lhe ao de leve o alumínio, cada um dos orifícios, as borrachas, encharcados de água e detergente.

São 03h20. Que estranho. Só passaram três minutos desde que vi as horas e parece que passou uma eternidade. Ao invés, já passaram anos desde que pousaste o teu vestido naquela cadeira do nosso quarto e parece que ainda foi ontem que te ouvi cantar uma canção qualquer do Sérgio Godinho
não sei a letra, mas só podia ser do Sérgio Godinho
ali na cozinha, enquanto fazias café para nós. Se queres que te diga, parece que ainda foi esta manhã que te vi entrar
as maçãs do rosto rosadas pelo frio da rua
com o jornal numa mão e o pão quente, ainda a fumegar, na outra. Quase podia jurar que ainda há pouco andavas aqui na sala a fumar cigarro atrás de cigarro, a maldizeres-te a ti própria porque deixaste cair cinza na carpete
- E a empregada nunca aspira esta carpete como deve ser!
enquanto abanavas os cabelos ao som do Sérgio Godinho e inundavas o meu nariz com o cheiro do teu champô. Mas vendo bem, no cinzeiro há apenas beatas dos meus cigarros, de cujo aroma tu sempre te queixaste e que nunca compreendeste como é que eu conseguia inalar. Dos teus cigarros, nem vestígio. De marcas do teu baton nos filtros brancos dos teus cigarros, nem sombra.
Se calhar, não estiveste ainda há pouco aqui na sala a dançar. Se calhar, é tudo fruto da minha imaginação. Se calhar, sou eu que ainda sonho contigo acordado, manta no colo, chinelos enfiados nos pés sempre frios porque esta casa é enorme e há corrente de ar em todo o lado, mas, principalmente, no nosso quarto. Por falar nisso, deixa-me ir ao nosso quarto. Faz-se tarde, é melhor fechar as portadas e ligar o aquecedor, que já são mais do que horas de dormir.

© [m.m. botelho]

17.3.08

a palavra/as palavras

© Sindri | fotografia | fallin in love was not part of the plan | 2007

Tu vais dizendo as palavras
- a palavra -
enquanto eu te desenho no corpo as linhas das cores que a chuva tem e me encandeiam os olhos.
Lá fora, continua a pingar, a gotejar das folhas das árvores monumentais do quintal dos vizinhos. No lado de lá da rua, no prédio em frente, uma rapariga de vestido preto, cotovelos apoiados no parapeito da janela, suspira pelos raios de sol para sair à rua.
Ainda que o calor chegue e a chuva cesse, permaneceremos absortos em nós: eu em cada interstício do teu ventre, tu na essência dos meus cabelos, eu no ardor da tua boca, enquanto vamos dizendo a palavra
- as palavras -
para sempre tatuadas em cada ruga dos nossos lençóis.

© [m.m. botelho]

13.3.08

Chuva num monitor cinzento

Ela é somente um sonho. Ela não é real, não pode ser real. Ela ultrapassa a realidade, comece a realidade onde começar, vá à velocidade que for, seja lá isso o que for, isso de ultrapassar. Ela só pode ser fruto da minha imaginação. Digam-me que ela é fruto da minha imaginação. Que não pode ter cheiro, nem cor, nem vida para lá do meu cérebro, para lá do meu corpo, da minha vontade de a materializar cá dentro. Digam-me que ela não passa de um pesadelo, de uma visão futurista e idealista da minha cabeça, de um não-querer muito imenso e muito intenso que eu tive guardado no peito a sete chaves durante tanto tempo. Digam-me que ainda não foi agora que ela ganhou vida. Digam-me que, para lá desta televisão dessintonizada em que se tornou o mundo dentro dos meus olhos, ela não existe, ela se esfuma, ela não passa de poeira invisível. Digam-me que ela é apenas chuva num monitor cinzento que não se deixa domesticar por um controle-remoto. Digam-me que ela não veio de repente, não me abriu a porta de casa e não me levou tudo. Digam-me, digam-me, digam-me. Digam-me, por favor, que esta noite não foi a noite em que a morte veio para me roubar de mim.

© [m.m. botelho]

5.3.08

Ex

A noite arrefeceu. Logo hoje, que tu não estás cá para me aqueceres debaixo dos cobertores, logo hoje que tu não vens. Ainda me hás-de explicar porque é que tens sempre os pés tão frios.
Quando fui à rua despejar o lixo vi passar do lado de lá do passeio a tua ex-mulher. Continua com a mania de passar aqui à porta todas as noites. Trazia o cão pela trela, vestia uma camisola vermelha. Fica-lhe bem o vermelho, fá-la mais nova. Quando abri a porta, ela vinha mais ou menos em frente à mercearia e desde então não tirou os olhos de cima de mim. Ela percebe que me incomoda que me olhe assim, mas não porque seja tua ex. Ela sabe que tem um estranho poder qualquer de prender as pessoas com o olhar. Tenho medo que me hipnotize, que depois me leve para casa, me mate, corte em pedaços e me dê de comer ao cão. Não sei ao certo se lhe tenho medo ou se a acho simplesmente maluca.
Depois de despejar o lixo fechei a porta o mais depressa que pude. Enquanto subia as escadas podia ouvir o eco do meu coração descompassado no corredor. Senti a garganta a latejar, uma dor de cabeça repentina. Entrei em casa e fui a correr buscar a manta. De repente, a noite arrefeceu só porque a tua ex-mulher voltou a passar aqui na rua. Logo hoje, que tu não vens. Ainda me hás-de explicar se também é por causa dela que tens sempre os pés tão frios.

© [m.m. botelho]

5.2.08

A tua partida nunca [me] é [demasiado] fácil.

Raramente me lembro do que sonhei, a não ser quando sonho com a tua partida. Dou por mim a antecipar o momento em que a porta desta casa se fecha atrás do teu vulto esguio. Ouço o barulho seco da porta do teu carro, o estrondo do motor em combustão, o rugido do portão da garagem a fechar. Da varanda, já só vejo as marcas que os pneus deixam no asfalto. A tua partida nunca [me] é [demasiado] fácil.
Chove. Quando tu vais embora, está sempre a chover, quer seja Janeiro, Abril ou Julho. E, tal como nos meus sonhos, chove no mundo real lá fora e chove por dentro dos meus olhos. Chove em toda a parte, a todo o tempo, quando te vais.

© [m.m. botelho], ao som de Into My Arms, de Nick Cave & The Bad Seeds, do álbum The Boatman's Call [1997], aqui numa versão ao vivo.



I don't believe in an interventionist God / but I know, darling, that you do / but if I did I would kneel down and ask Him / not to intervene when it came to you / not to touch a hair on your head / to leave you as you are / and if He felt He had to direct you / then direct you into my arms
into my arms, oh Lord / into my arms, oh Lord / into my arms, oh Lord / into my arms
and I don't believe in the existence of angels / but looking at you I wonder if that's true / but if I did I would summon them together / and ask them to watch over you / to each burn a candle for you / to make bright and clear your path / and to walk, like Christ, in grace and love / and guide you into my arms
into my arms, oh Lord / into my arms, oh Lord / into my arms, oh Lord / into my arms
and I believe in love / and I know that you do too / and I believe in some kind of path / that we can walk down, me and you / so keep your candlew burning / and make her journey bright and pure / that she will keep returning / always and evermore
into my arms, oh Lord / into my arms, oh Lord / into my arms, oh Lord / into my arms

4.2.08

«Partir é demasiado fácil.»

© [m.m. botelho] | algures entre porto e lisboa | setembro de 2007


         «As coisas pioram, o mundo muda. No meu sonho nada evolui. Eu estou sempre como agora. Tu não sais da minha frente. As pessoas não crescem. As árvores não morrem. Se a vida pudesse ser parada, eu parava-a aqui.
         Tenho os meus amigos à minha volta. Durmo numa terra estrangeira. Todos os dias entro em Portugal. Passo a fronteira de pijama. E queria que fosse sempre assim, que não mudassem o lugar às casas e às estradas, que as pessoas passassem sempre à mesma velocidade, cumprimentando-se lentamente lembrando-se dos nomes, com respeito e com prazer.
         Sou contra as viagens. As viagens existem, mas não se deviam forçar. Partir para quê? No meu sonho não descubro terras nem estranhos: descubro-me a mim e à minha casa. Partir é demasiado fácil.»


Miguel Esteves Cardoso | As Minhas Aventuras na República Portuguesa | Lisboa: Assírio & Alvim | 1990 | p. 3

Sem título

- Já sabes viver sem mim?
- Nunca soube.


© [m.m. botelho]