27.7.06

Capítulo IV

© [m.m. botelho]
© [m.m. botelho] | fotografia | casa da música | porto | abril de 2006


Pousei o telefone com uma imensa amargura a estraçalhar-me o peito. Sinto que os dias do meu Pai voam a uma velocidade superior às suas forças.
O meu Pai é médico. Pneumologista. Descende, aliás, de uma família de médicos. O meu Avô era cardiologista e o meu Bisavô psiquiatra. Mas nem por isso somos uma família muito saudável...
O meu Pai casou duas vezes. A primeira mulher faleceu ao dar à luz dois gémeos, dois rapazes. O primeiro bebé nasceu com algumas dificuldades respiratórias, mas conseguiram trazê-lo ao mundo com relativa facilidade. O segundo teimou em não querer deixar o aconchegante ventre da mãe. Tiveram de forçar o parto com o auxílio de instrumentos e, duas horas de angústia depois, nasceu morto. Logo em seguida, a Mãe entrou em coma. O primeiro bebé morreu nesse mesmo dia, disse a parteira que por o gémeo ter nascido morto.
- Que estes bebés são assim, quando um está doente, o outro sente, quanto mais quando um morre!
Mas a dor do meu Pai, que havia começado naquelas duas horas de angústia, havia de aumentar três dias depois, com a morte da mulher.
No dia seguinte à morte da Helena - assim se chamava a primeira mulher do meu Pai - ele despediu todos os empregados da casa. Deixou de comer, raramente saía à rua, deixou de atender pacientes e os músculos entorpeceram-lhe. Não atendia telefonemas, não lia a correspondência, não queria saber de nada do que se passava no mundo. Só tinha forças para chorar, chorar muito. E chorava tanto que ficou com dois sulcos no nariz, onde se alojavam as lágrimas que ele não limpava, porque não tinha forças para erguer o lenço até ao rosto.
Permaneceu neste estado de letargia tanto tempo que não o conseguiu contabilizar. Quando o meu Avô tomou conhecimento do que sucedera, tratou de encaminhar os pacientes para outros médicos e foi ter com o meu Pai. Quando o encontrou, com os olhos esbugalhados e a barba crescida, o cabelo desalinhado, as calças coçadas de tanto baloiçar para a frente e para trás num cadeirão pesado que ele próprio arrastara até à janela do escritório, não reconheceu o filho.
- Porque choras, meu filho? – tentou articular o meu Avô, ajoelhado aos pés de meu Pai, comovido mas contido.
- Choro pela alegria. – respondeu, a quem não se ouvia sequer um fio de voz desde os trágicos acontecimentos.
- De alegria? - espantou-se o meu Avô.
- Não, Pai. Pela alegria.
- Mas "pela alegria"?... Como é isso?
- Choro pela alegria com que quis encher as paredes e os corredores desta casa, Pai. Pela alegria com que quis encher a minha vida. Choro por essa alegria. Porque ela partiu. E não vai voltar. Percebe?
O meu pobre Avô, sessenta e seis anos vividos, estupefacto, não sabia o que responder. Ergueu-se, caminhou em passos silenciosos até ao corredor. Havia muito a fazer.
Os dias seguintes, passou-os o meu Avô entre roupa branca, a sala de engomar, o fogão e a pia da loiça. O meu Pai, só, após ter despedido todos os que lhe lembravam a sua condição humana, vivia então num "caos doméstico indescritível", nas palavras do meu Avó. Não havia um prato limpo, uma camisa engomada, um copo onde o Doutor António - assim se chamava o Avô - pudesse preparar a sua mistela diária indispensável, cujo aroma intenso tão bem recordo: conhaque e algumas gotas de limão.
Para o meu Avô, a escolha pela cardiologia não fora difícil, antes óbvia. Para ele, só fazia sentido ser médico se fosse para exercer cardiologia. E isto porque, a seu ver, a cura de todos os males residia "num bom conhaque, temperado de algumas gotas de limão". Excepto quanto aos males de coração. Esses, para o meu Avô, não tinham cura.
- Assim, já vês, – sentenciou numa das suas inúmeras tentativas de convencimento a que lhe seguisse os passos – a cardiologia é um excelente negócio. Se os males do coração não têm cura, temos doentes eternamente garantidos!
E eu, neta fascinada pelo Avô Doutor, assentia com a cabeça, sentindo-me especial por ele partilhar comigo, e só comigo, o segredo da sua profissão.
Cerca de oito semanas mais tarde, após várias tentativas infrutíferas para devolver o meu Pai à vida, o meu Avô, farto do sabor a sabão que invadia o seu conhaque, da ruína dos seus colarinhos em quilos de goma, esfomeado e carente de atenção, decide tomar as rédeas da vida do seu filho.
A manhã estava péssima, sem uma brecha de sol, um arrulhar de rola, uma aberta na chuva grossa. Após a rejeição inevitável de uma chávena de borras com pretensão a café, restava a leitura o jornal diário da região, cuja entrega custaria ao ardina três dias de cama e, provavelmente, algumas doses de conhaque com limão. O meu Avô, impaciente, tentava ler, mas as letras, algo ensopadas da chuva, exigiam-lhe a maçada de empurrar os óculos que, a cada dez segundos, lhe escorregavam pelo nariz demasiado aquilino. Num movimento brusco, ergueu-se da poltrona e correu para o telefone. Cinco minutos depois, ditava ao repórter:

Precisa-se: governanta interna.
Requisitos: eficiência, educação e discrição.
Para pessoa só.
Boa remuneração.

Passadas as chuvas, apareceram duas candidatas. No dia seguinte, sete. As duas primeiras, depois da entrevista, haviam passado palavra às outras referindo que o serviço era em casa de meu Pai, o que era sinónimo de bom salário e pouco trabalho. Entre as nove mulheres educadas e eficientes, tal como o anúncio exigia, uma sobressaiu aos olhos do meu Avô pela sua docilidade. Tinha vinte e seis anos de inexperiência disfarçada de temperança e chamava-se Mariana.
Seguindo as instruções do meu Avô, a Mariana tomou conta dos destinos da casa. Preparava as refeições para o meu Pai, engomava-lhe a roupa e o jornal, atendia os telefonemas. Contratou dois empregados: um para tratar do jardim, orgulho do meu Pai na felicidade do passado; e outro que tinha como função fazê-lo entrar no carro nem que fosse à força e levá-lo a passear: a ver paisagens belas, de início; a acontecimentos sociais, depois.
Chamava-se José. Foi o Sr. José que muitas vezes me foi levar e buscar ao colégio. E à natação. E às aulas de música. Lembro-me muito bem do Sr. José. Era um senhor simpático, daqueles para quem olhamos e vemos a palavra motorista estampada no rosto, um homem que se confundia com a profissão. Vestia sempre fato azul-escuro. Os sapatos, sempre polidos, brilhavam, que lá nisso a Mariana é intransigente (recordo-me como chegava até a ser aborrecida, sempre a sacudir-me o vestido e a puxar-me as saias para baixo, antes de eu entrar no carro).
A Mariana sempre usou o mesmo penteado. Pelo menos, desde que eu a conheço. Faz duas tranças longas - tão longas que não lhes vemos as pontas - que enrola nas têmporas. E só vemos tranças, tranças, tranças. Enroladas sobre si mesmas, sem princípio nem fim. É muito bonita, a Mariana. Tem a pele muito branca. E macia. E cheira sempre a alfazema.
O meu Avô contou-me um dia que a pedira em casamento, mas que a Mariana não aceitou.
- Respondeu-me que não era o destino dela, que quase poderia ser minha neta! – gaguejava o meu Avô, já muito velho. E era capaz de ter razão, já que a diferença de idades entre a Mariana e o meu Pai é de quase vinte anos. O meu Avô ficou destroçado, claro, mas compreendeu a Mariana. Disse-lhe que ela tinha olhos de criança e que era assim que deveriam permanecer para sempre, com o brilho dos olhos das crianças.
- Claro está que se casasse comigo não poderia ter aqueles olhos meigos, senão, todos os homens se apaixonariam por ela e eu ficaria muito enciumado!
- Assim como o Avô se apaixonou? – perguntava-lhe eu, com ar de quem está sedenta de respostas.
- Sim, como eu me apaixonei. E tu, minha menina, também tens meiguice nos olhos. Hás-de ter legiões de pretendentes atrás de ti!
Enganou-se, Avô. Mas já não vou a tempo de lho dizer.

Num dos muitos passeios que o meu Avô planeou para o meu Pai, o Sr. José deixou-o à porta de um teatro. O meu Pai, que já havia ido ao teatro duas ou três vezes desde que a Mariana e o Avô haviam tomado conta do seu fado, começava a habituar-se ao reboliço das noites culturais. E começava a apreciar novamente essas horas de deleite, de encantamento, em que se deixava levar pelas personagens em palco, pelas histórias criadas "para entreter mentes ociosas", como dizia o Avô.
Nessa noite estava em cena A Dama das Camélias. O programa encantou o meu Pai. Também ele, nos seus tempos de estudante em Coimbra, interpretara a personagem de Armando Duval numa representação tertuliana, só para amigos. Durante toda a peça - viria a confessar-me anos mais tarde - não conseguiu tirar os olhos da actriz que encarnava Margarida Gauthier.
Na noite seguinte, muito surpreendido ficou o Sr. José quando o meu Pai lhe mandou preparar o carro. A Mariana, de ouvido sempre alerta, ficou tão desconfiada que não resistiu a telefonar ao meu Avô.
- Senhor Doutor, o Doutor Joaquim mandou preparar o carro. Mas, hoje ele não iria, supostamente, começar a reorganizar as fichas dos pacientes?
- Ó Diabo! Que me diz, Mariana? Que o Joaquim vai sair por vontade própria?...
Quando a Mariana me contou isto, não pude deixar de imaginar o Avô a cofiar pensativa e sobressaltadamente as barbas e um sorriso maldoso a escorrer-lhe da boca...
O motivo de tanto espanto era o facto de o meu Pai pretender assistir novamente à representação. No final, rumou aos camarins com uma rosa vermelha que havia furtado da entrada. Procurou a actriz principal.
- A Luísa? É o último camarim do lado direito. - alguém o informou.
Um ano depois, as fichas dos doentes estavam organizadas, o Avô deixara de telefonar para os teatros a reservar bilhetes para o meu Pai, o jardim voltara a ser inspeccionado todos os domingos e a voz colocada do Doutor Joaquim já se ouvia pela casa a cantarolar árias líricas para tenor. O casamento devolvera-lhe a jovialidade de outros tempos.
- Quero ter um filho. – disse ele com ar sério um dia, alguns anos mais tarde, à minha mãe.
- Um filho? Mas tu não disseste que não querias ter mais filhos? Que não querias passar novamente pela amargura que já viveste?
- Eu sei muito bem o que disse. E também sei muito bem o que estou a dizer. Quero ter um filho. Contigo. Uma criança, aqui, a brincar pela casa.
- Ah sim? E quem lhe mudará as fraldas e dará o leite? Acaso pensas sobrecarregar a Mariana com mais esse fardo?
- Um filho não é um fardo! E, além disso, posso muito bem mudar-lhe as fraldas.
- Joaquim... Sê razoável. Tens quarenta e sete anos. Eu, trinta e oito. Como iremos ter um filho com esta idade? Teremos um neto, quanto muito!
- Não importa a idade. Quero ter um filho. Quero sentir-me vivo de novo. Quero perpetuar o nosso amor numa criança. Quero, e pronto!
O desejo do meu Pai viria a trazer-lhe vários dissabores com a minha Mãe, que deixara de representar há já algum tempo e que desde que casara o vinha fazendo progressivamente com menos regularidade. Mas a grande Luísa não se afastara totalmente do teatro, nem podia: continuava a dar workshops e masterclasses e, em paralelo, encenava peças que eram sempre um sucesso antecipado na pena dos críticos.
- Como vou fazê-lo com um barriga enorme, não me dizes?
E, a par destas palavras, o meu Pai ouvia uma voz interior que lhe segredava "se ela não quiser, nada feito". "Mas" - atalhava ele rapidamente sempre que esta história era contada - "contra Deus não há vontade", e a minha Mãe engravidou, mesmo sem querer.
Sou fruto de uma gravidez plácida, sem atribulações. A minha Mãe, mesmo contra vontade expressa dos meus Avô e Pai, continuou a sua actividade extenuante até eu clamar um pouco da sua atenção, numa manhã risonha de Abril.
- Mesmo a meio de uma aula! Que vergonha! – costumava dizer, aborrecida, sempre que fazia referência ao facto. E eu e o meu Pai ríamos, apontando para ela e fazendo-lhe caretas.
O meu Pai fez questão de assistir ao parto, mas nunca mudou uma única fralda. Sempre que a minha Mãe tentava ensinar-lhe a tratar de mim, arranjava algo para fazer, fosse no jardim, no consultório ou em qualquer lado.
- Eu já sabia que isto ia ser assim! Prometem, prometem, mas nunca cumprem! – rabujava ela, enquanto ele lhe acenava com o maço de cigarros na mão, pondo o chapéu e batendo a porta.
O meu Pai fuma desde os dezoito anos. Ou melhor, fumava.
- Vícios coimbrões. – costumava dizer para se desculpar, sempre que, a contragosto da minha Mãe e da Mariana, acendia mais um cigarro. Ambas detestavam o cheiro que ficava na casa, das roupas aos cortinados, das toalhas aos papéis. Embora fumasse desmesuradamente, ele nunca o fazia na minha presença.
- Tens-lhe mais amor do que a mim, é o que é. – era a convicção da minha Mãe, à qual o meu Pai não dava resposta, certo de que a verdade da confirmação das suas suspeitas a magoaria.
Há cerca de um ano que o meu Pai não fuma, desde que lhe foi diagnosticado cancro no pulmão.
- Ironias do destino. – diz o pneumologista conformado.
- "Bem prega Frei Tomás! Ouvi o que ele diz, não olheis ao que ele faz!" – riposta-lhe a Mariana, invariavelmente, na tentativa de o provocar.
Mas o meu Pai não responde. Sabe bem que de nada lhe adiantaria. Sente-se todos os dias a morrer um pouco às mãos de um mal contra o qual lutou toda a vida, ainda que não com o seu próprio corpo. Passaram-lhe pelas mãos alguns pacientes que vieram a ser ceifados pelo cancro no pulmão mas ele, sempre dizendo que "contra Deus não há vontade", nunca pensou ter de sentir as dores que os doentes lhe descreviam, ter de tomar os medicamentos que prescrevia, ter de se poupar aos esforços como recomendava. Desde há onze meses que houve um eco da sua voz a falar com ele mesmo. Desde há onze meses que se sente um verdadeiro idiota por não ter praticado o que apregoava. Desde há onze meses que não pára de tentar convencer-me de que tenho de deixar de fumar.
- Não consigo deixar de pensar que foi devido ao meu mau exemplo que começaste a fumar... - lamenta-se.
- Ó Pai, não diga disparates. O Pai nem sequer fumava ao pé de mim, recorda-se? Olhe, lembra-se dos seus vícios coimbrões? Pois bem, no meu caso são vícios urbanos. E não pense mais nisso, está bem?
Ele ergue as mãos e deixa-as cair num gesto de quem desiste, mas não desiste. Sempre que tem oportunidade pergunta-me se já deixei de fumar. Como há pouco, ao telefone.

© [m.m. botelho]

(Re)Encontrado numa incursão ao baú das minhas inutilidades, este texto corresponde ao capítulo IV de um projecto iniciado em 2000 e suspenso há alguns anos. Foi escrito noite dentro, em Coimbra, ao som do álbum Paraíso, dos Madredeus. Da canção A Tempestade, com letra de Carlos Maria Trindade, retirei a expressão «contra Deus não há vontade», que atribuí à personagem Joaquim.

A grande nuvem escura vai-se embora / Dissolve-se a loucura da tormenta / A maré recua agora plana e lenta / As gaivotas largam terra sem demora
Sobrevoam sem ruído o seu rochedo / De tanta vaga e espuma já dormente / Enquanto o sol que brilha novamente / Lá beija a areia toda já sem medo
Fui ver / Fui ver / A tempestade / Vim a correr
Fui ver / Fui ver / A tempestade / Vim-te dizer
Destroços de madeira na corrente / Deixam ver o que em tempos foi uma proa / Pintada de carinho e muitas côres / Ao estilo desta nossa boa gente
Fica o drama dos que esperam na falésia / Por quem Deus já destinou à eternidade / E é lição que contra Deus não há vontade / Fica a fúria calma da grande saudade
Fui ver / Fui ver / A tempestade / Vim a correr
Fui ver / Fui ver / A tempestade / Vim-te dizer